COLUNA DO RICCHETTI – O Preço de ser quem não somos

COLUNA DO RICCHETTI - O Preço de ser quem não somos

Existe um cansaço que não vem do corpo.

Não se cura com uma noite de sono.

Não melhora com férias.

Não desaparece com um fim de semana tranquilo.

É o cansaço de quem passa anos tentando ser alguém que não é.

Conheci pessoas que mudaram o jeito de falar para evitar discussões.

Que esconderam opiniões para preservar a paz.

Que deixaram de ouvir as músicas que gostavam, de frequentar lugares que amavam e até de sonhar os sonhos que carregavam desde a juventude.

Tudo em nome de uma relação.

Tudo para não desagradar.

Tudo para continuar sendo aceitas.

No começo parece um gesto de amor.

Depois vira hábito.

E, quando percebemos, já não estamos fazendo concessões.

Estamos desaparecendo.

Aos poucos, a pessoa que fomos um dia começa a ficar distante.

Como uma fotografia antiga esquecida numa gaveta.

E então surge aquela sensação estranha.

O vazio.

A ansiedade.

A tristeza sem explicação aparente.

Porque a alma possui uma linguagem própria.

Ela suporta muita coisa.

Mas não suporta ser abandonada por muito tempo.

Talvez seja por isso que algumas separações não representem o fim de uma história.

Representem o reencontro com ela.

Não o reencontro com outra pessoa.

Mas consigo mesmo.

Com a mulher que ficou anos esperando ser ouvida.

Com aquela pessoa que esqueceu dos próprios sonhos para sustentar os sonhos dos outros.

Existe coragem em permanecer.

Mas existe uma coragem ainda maior em partir quando a permanência exige que você deixe de ser quem é.

Porque nenhum amor verdadeiro pede que alguém diminua sua luz para continuar sendo amado.

E chega um momento em que a vida nos faz uma pergunta simples:

“Você quer continuar interpretando um papel ou deseja finalmente viver a sua própria história?”

A maturidade talvez comece exatamente aí.

No dia em que aceitamos o risco de decepcionar algumas pessoas para não continuarmos decepcionando a nós mesmos.

E, nesse instante, algo extraordinário acontece.

A máscara cai.

A paz chega.

E a alma, finalmente, volta para casa.

— José Luiz Ricchetti

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