Em entrevista ao Jornal da Clube, o vereador Davi afirmou que não disputará a reeleição, revelou sentir receio de represálias e criticou a presença do prefeito no plenário. “Não tem tribuna livre. O presidente dá a voz, mas o regimento interno não autoriza. Questionado por Thiago Melego e Luís Felipe, ele também abordou o déficit habitacional de 4 mil inscritos para 90 casas e ‘hablou’ outros assuntos…
SÃO MANUEL — Em entrevista ao Jornal da Clube na última quinta-feira (24), o vereador Davi Pires fez uma série de declarações sobre os bastidores da política em São Manuel. A conversa, conduzida por Thiago Melego e Luís Felipe, durou cerca de 30 minutos e abordou desde a relação com o Executivo até problemas estruturais da cidade.
Veja a íntegra da entrevista:
“Me sinto um peixe fora d’água”
Questionado por Thiago Melego sobre seu futuro político, o vereador afirmou que não será candidato a vereador na próxima eleição. “Me sinto um peixe fora d’água. Já pensei em desistir. Não é justo a população pagar o salário de um político que vai duas, três vezes na Câmara e não tem a força de discussão”, declarou.
Luís Felipe então perguntou se o vereador se contentaria em ficar apenas na Câmara. Davi respondeu: “Não quero que a minha vida se encerre na vereança sem eu ter contribuído com a sociedade da forma que eu acredito”. Ele deixou em aberto se disputará cargo em São Manuel ou em Pratânia.
Coação e presença do prefeito no plenário
Thiago Melego perguntou sobre a relação do vereador com o Executivo. Davi afirmou que o prefeito o considera “oposição“, mas negou: “Não tem projeto de lei que eu votei contra, não tem indicação. Não tenho motivos para dizer que estou contra o prefeito, estou a favor do município”.
O vereador revelou que o prefeito comentou seus stories com “risadinhas” e mandou “acalmar o coração”. “Prefeito que perde tempo atacando vereador mostra incompetência e falta de comprometimento com a cadeira”, disse.
Davi também afirmou que sente receio de sofrer represálias. “[…] eu acabo me sentindo coagido ali dentro, com medo até de ser caçado, dependendo do que a gente fala. Inclusive, até aqui na própria rádio, dependendo do que a gente fala, eles podem transformar”, declarou.
Ele criticou a presença frequente do prefeito no plenário da Câmara. “Não tem tribuna livre. O presidente dá a voz, mas o regimento interno não autoriza. Ele não pode ir lá como prefeito. Enquanto cidadão que ocupa o cargo de prefeito, é só dentro da prefeitura e fora no município”, afirmou.
4 mil inscritos para 90 casas
Thiago Melego perguntou sobre os principais problemas da cidade além da saúde. Davi então revelou um dado que chamou atenção: 4.061 inscritos no programa habitacional para apenas 90 unidades. “Como assim? É pouquíssima casa”, criticou.
Ele citou sua experiência como prefeito de Pratânia, onde conseguiu ampliar de 27 para 137 unidades após negociação com o governo estadual. “Fui para São Paulo, comi marmita em posto de caminhoneiro, lutei. Muito choro, muita lágrima, muitas viagens. Mas eu não ia para São Paulo para fazer como a maioria dos políticos fazem não”, disse.
“Em Pratânia, quando eu assumi, inclusive o Roque esteve presente no dia da entrega das casas, eu fiz questão de parabenizá-lo. Porque ele conseguiu a área para a construção das casas. As casas não iriam sair em Pratânia porque o governo estava fazendo corte. Pois eu fui por A mais B, com documentos comprovando a necessidade da quantidade de casas que a gente precisava. Eu teria recebido somente 27 casas. Eu recebi as 137” explicou ele.
Paciente terminal sem morfina
Luís Felipe questionou o vereador sobre os requerimentos que vinha protocolando. Davi afirmou ter protocolado pedido cobrando a relação de medicamentos em falta na rede pública e relatou o caso de um paciente com câncer em estágio avançado, morador do bairro Aparecida, sem acesso à morfina.
“A pessoa que já está morrendo, morrer com dor, é desumano. Você imagina se você ver seu pai gritando de dor na sua casa e não poder fazer nada? Paguei os impostos que eu pago”, desabafou.
Davi também afirmou ter recebido reclamações sobre falta de dipirona, gaze e agulha para insulina nos postos de saúde, e criticou a Unesp por falhas na entrega de medicamentos de alto custo. “Não vi reunião do município com governador ou Secretaria de Saúde para resolver isso”, disse.
Críticas a gastos com viagens
Thiago Melego questionou se caberia uma denúncia ou questionamento formal sobre os gastos do Executivo. Davi afirmou que prepara requerimentos para questionar todas as viagens do prefeito e o retorno de recursos obtidos.
“Vejo muita mordomia com veículo, motorista, alimentação, hospedagem. Além de outras que a população não faz ideia”, declarou. “Eu ouvi prefeitos falando que vai ficar lá no hotel porque é 5 estrelas. Pô, o seu trabalho é ir lá fazer seu trabalho e volta. Eu faço bate e volta. Vou para São Paulo com recurso próprio.”
Só que eu não ia para São Paulo para fazer como a maioria dos políticos fazem não. Eu sempre comia marmita em postos onde tem caminhoneiro, porque onde tem caminhoneiro a comida é boa. É os postos mais baratos. Essa é uma das mordomias que você estava citando.
[…] Eu nem vou abrir mais a minha boca porque eu tenho vergonha de falar que nessas horas eu compartilhei desses momentos e ter que ficar calado.
Na entrevista, Davi citou o exemplo de ter conseguido um ônibus através de ligação: “eu muitas vezes consegui um ônibus escolar aqui através do Felipe Franco. Através de uma ligação. Qual foi a despesa que eu tive? Eu precisava ir daqui para São Paulo? Um ônibus de R$ 500 mil, na época o Salaro era prefeito“.
Neste momento ele foi questionado por Thiago: “Você tem uma rede de contatos. Existem momentos, momentos e momentos… E às vezes a pessoa está lá em casa ouvindo e precisa entender que nem sempre as coisas são assim”.
Foi ai que Davi disse: “Correto […] Eu não estou falando desses primeiros que estão entrando (vereadores novos). Os primeiros têm que ter o contato. É necessário essa articulação, essa proximidade. É necessário. Mas eu não acredito que seja todo mês necessário isso”.
Vale-alimentação de R$ 800
Thiago Melego mencionou que não sabia o valor exato do vale-alimentação dos servidores. Davi afirmou que não estava presente na votação e classificou o valor, de aproximadamente R$ 800, como “vergonhoso para o funcionário”.
“Eu, enquanto vereador, que eu tenho tentado dar o meu melhor lá dentro, mas uma durinha só não faz verão”
Frente Parlamentar e UBS Pediátrica
Thiago Melego lembrou que o vereador vinha falando da Frente Parlamentar da Saúde desde o início do ano. Davi confirmou que já protocolou o pedido e que a articulação está em andamento para reunir secretária de saúde, diretor do hospital e responsáveis pelos postos.
Sobre a UBS Pediátrica exclusiva para crianças até 14 anos, proposta apresentada em conjunto com outros vereadores, Luís Felipe perguntou se era viável. “É viável sim. É só economizar nas mordomias do político. A população merece e tem condições. Eu fui prefeito dois mandatos, não tive benefício, mas a minha população colheu fruto“, respondeu.
Humanização no serviço público
Davi defendeu a humanização no atendimento. “Acolhimento não é colocar a pessoa numa salinha e perguntar onde dói. As pessoas têm nome, têm família, têm sentimento. A dor muitas vezes está na alma, não na carne”, disse.
Ele contou que, quando foi prefeito em Pratânia, o município se tornou referência em saúde pelo acolhimento, e que exigia reuniões semanais de equipe para resolver conflitos internos. “Você não está feliz com o companheiro de trabalho? Vocês vão lavar a roupa suja ali dentro da salinha, mas a população não vai pagar pelo seu mau humor lá na frente”, afirmou.
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