
Outro dia sentei sozinho num café.
Ou pelo menos foi isso que pensei no começo.
Era uma tarde comum dessas que passam despercebidas pela maioria das pessoas — xícaras tilintando, conversas atravessadas no ar, gente olhando o celular como quem procura alguma coisa que nem sabe mais o nome.
Pedi um café sem açúcar.
Coisa da idade, talvez.
Ou da vida.
E fiquei ali… olhando pela janela como fazem os homens que já entenderam que algumas respostas não chegam correndo.
Chegam devagar.
Foi então que aconteceu uma coisa curiosa.
Pela primeira vez em muitos anos… senti que alguém havia se sentado ao meu lado.
Não era ninguém.
Era eu mesmo.
Mas não esse eu apressado que responde mensagens, resolve problemas, paga contas e aprende a sobreviver entre compromissos e relógios.
Era outro.
Um homem mais silencioso.
Mais cansado.
Mais verdadeiro.
Ficamos algum tempo sem dizer nada.
Como fazem os velhos amigos quando já não precisam preencher o silêncio com palavras inúteis.
Olhei para ele.
Ele olhou para mim.
E confesso que não gostei imediatamente do que vi.
Havia ausências demais naquele rosto.
Sonhos adiados.
Abraços não dados.
Cartas nunca escritas.
Pessoas que partiram levando pedaços inteiros da mobília emocional da alma.
Percebi também que eu havia passado anos cuidando da vida…, mas pouco cuidando de mim.
Coisa estranha essa.
A gente reforma a casa, troca o carro, organiza documentos, limpa gavetas…
Mas deixa emoções inteiras acumulando poeira dentro do peito.
E o tempo…
Ah, o tempo.
Esse velho sábio nunca grita.
Ele apenas senta ao nosso lado quando a vida finalmente faz silêncio suficiente.
Foi ali, diante daquela xícara morna, que entendi uma coisa dolorosamente bonita:
Há pessoas que passam a vida inteira sem jamais se encontrar consigo mesmas.
Fogem no trabalho.
Nos ruídos.
Nas festas.
Nas urgências.
Nas distrações modernas que nos impedem de ouvir a própria alma respirando.
Eu também quase fui uma delas.
Mas naquela tarde…
pela primeira vez…
eu me sentei ao lado de mim mesmo.
E apesar de tudo o que perdi pelo caminho…
descobri que ainda havia alguém dentro de mim esperando para ser escutado.
Porque o maior abandono da vida não acontece quando alguém vai embora.
Acontece quando nós mesmos deixamos de nos acompanhar.
José Luiz Ricchetti – 08/05/26


