
Há manhãs em que a gente acorda…
mas não é o corpo que levanta — é a alma que desperta primeiro…
e começa a fazer perguntas que o dia ainda não sabe responder.
O café está quente.
A luz entra pela janela como sempre entrou.
O mundo segue exatamente igual.
Mas, dentro da gente…
alguma coisa mudou de lugar.
E então vem ela — silenciosa, insistente — a pergunta que não pede licença:
onde foi que eu errei?
Não é um pensamento qualquer.
É daqueles que chegam com peso…
que puxam lembranças…
que reviram caminhos…
que nos fazem olhar para trás como quem procura um ponto exato onde tudo poderia ter sido diferente.
E, de repente, a manhã — que era clara — ganha um tom de cinza.
Não no céu…
mas no olhar.
É curioso…
porque sabemos — racionalmente — que fomos privilegiados.
Que tivemos oportunidades.
Que vivemos mais do que muitos viveram.
Mas a alma…
não faz contas.
Ela sente.
E, quando sente o cansaço…
nem a lógica, nem a história, nem as conquistas parecem suficientes.
É nesse instante que até a fé…
aquela que nos acompanhou por tantos anos — desde os bancos da igreja… passando pelos caminhos do espírito… pelas experiências que não se explicam… apenas se vivem — parece se afastar um pouco.
Não porque tenha ido embora.
Mas porque ficou em silêncio.
E o silêncio, às vezes, assusta mais do que qualquer resposta.
A gente então questiona tudo.
A vida.
As escolhas.
Os caminhos.
E, no fundo…
questiona a si mesmo.
Mas há algo que essas manhãs não contam.
Ou talvez contém…, mas bem baixinho:
A dúvida não é fraqueza.
É cansaço.
Cansaço de tentar encaixar a vida em um plano que ela nunca prometeu seguir.
Cansaço de esperar que o sucesso venha exatamente da forma que imaginamos.
Cansaço de sustentar certezas que, com o tempo, pedem para ser revistas.
Porque a vida…
não é uma linha reta.
É travessia.
E travessias não são feitas apenas de chegadas.
São feitas de desvios…
de pausas…
de recomeços silenciosos…
de caminhos que só fazem sentido muito tempo depois — e, às vezes, nem fazem.
Talvez o erro — se é que houve algum — não tenha sido nas escolhas.
Talvez tenha sido na expectativa.
Esperar que tudo fizesse sentido…
que tudo desse certo…
que tudo levasse a algum lugar visível.
Mas a vida, às vezes, trabalha em silêncio.
Nos molda sem aviso.
Nos transforma sem aplauso.
E quando olhamos para trás procurando fracassos…
talvez estejamos, sem perceber, ignorando a maior das conquistas:
ter permanecido.
Porque quem realmente perdeu a fé…
não questiona mais nada.
Quem desistiu…
não acorda com dúvidas.
Essas manhãs cinzentas…
por mais incômodas que sejam…
não são sinais de fracasso.
São pausas.
Pausas onde a alma tenta reorganizar aquilo que o coração ainda não conseguiu entender.
E talvez — só talvez — a resposta que você procura não esteja no passado…
Mas no simples fato de que, apesar de tudo…
você ainda está aqui.
E isso…
não é erro.
É vida.
José Luiz Ricchetti – 06/04/26


