
“Quando le radici sono profonde non c’è motivo di temere il vento.”
“Quando as raízes são profundas, não há razão para temer o vento.”
Em meu primeiro livro, Paço a Passo — Uma Viagem no Tempo, imaginei um encontro impossível com meu bisavô, Ângelo Ricchetti.
Naquela viagem literária através do tempo, ele se aproximava de mim, abraçava-me e pedia que transmitisse uma mensagem a todos os seus descendentes:
“Quando le radici sono profonde non c’è motivo di temere il vento.”
Na época, escolhi essa frase porque ela parecia resumir a história de nossa família.
Somente agora, tantos anos depois, compreendi verdadeiramente o seu significado.
Ângelo Ricchetti veio definitivamente para o Brasil em 1896, acompanhado de sua esposa, Maria Giovanna, e da primeira filha, minha avó Linda, nascida em San Bartolomeo in Galdo.
Não chegou como um imigrante comum.
Era maestro, jornalista, comerciante e um homem profundamente ligado aos ideais republicanos e libertários que agitavam a Europa de seu tempo.
Em São Manuel, fundou a Casa Ricchetti, criou um parque gráfico, editou o jornal O Movimento e participou da formação da banda da cidade.
Trouxe da Itália instrumentos musicais, livros, ideias, sonhos e uma enorme capacidade de recomeçar.
Existe uma antiga fotografia em que ele aparece ao lado de Maria Giovanna e dos filhos, já em terras brasileiras.
Sempre que observo aqueles rostos, tento imaginar o que sentiam.
Saudade?
Incerteza?
Esperança?
Talvez tudo isso ao mesmo tempo.
Quase cento e trinta anos depois de sua chegada ao Brasil, fizemos o caminho inverso.
Voltamos à Itália.
Não para abandonar uma vida.
Não para procurar novas oportunidades.
Voltamos para conhecer a terra onde nossa história havia começado.
Ao meu lado estavam minha esposa Alessandra, minhas noras Gissele e Bianca, meus filhos Gustavo, Thiago e Karina, e minhas netas Clara e Nina.
Três gerações caminhando por ruas que, embora desconhecidas, pareciam guardar alguma coisa de nós.
Durante muitos anos ouvi L’Italiano, de Toto Cutugno, como uma canção alegre sobre os hábitos, os costumes e o orgulho de um povo.
Naquela viagem, porém, compreendi que ela falava de algo maior.
Falava de pertencimento.
Existem lugares que visitamos.
E existem lugares que parecem nos reconhecer.
San Bartolomeo in Galdo foi assim.
As ruas de pedra, as pequenas praças, as casas antigas e as igrejas não eram apenas parte de uma paisagem italiana.
Eram testemunhas silenciosas de uma história que começou antes de todos nós.
Em determinado momento, encontrei uma fonte da cidade.
Abaixei-me e bebi daquela água.
Enquanto ela escorria pelas minhas mãos, pensei que talvez meu bisavô, minha bisavó e minha avó Linda também tivessem bebido ali.
Não sei se era a mesma fonte.
Talvez nem fosse.
Mas, naquele instante, isso deixou de ter importância.
A água vinha daquela terra.
Da terra que os viu nascer, sonhar e partir.
Então pedi que todos da família também bebessem.
Um a um, meus filhos, minha esposa, minhas noras e minhas netas repetiram aquele gesto.
Não havíamos planejado uma cerimônia.
Não pronunciamos palavras solenes.
Não fizemos promessas.
Apenas bebemos.
Mas alguns gestos simples carregam significados que só percebemos depois.
Naquele momento, não estávamos apenas matando a sede.
Estávamos bebendo da mesma origem.
Olhei para Gustavo, Thiago e Karina.
Depois para Clara e Nina.
Pensei que aquela viagem já não pertencia apenas ao passado.
Ela também pertencia ao futuro.
Um dia, talvez minhas netas contem aos seus filhos que beberam da água da cidade onde nasceram seus antepassados.
E talvez compreendam que as raízes não existem para nos manter presos ao lugar de onde viemos.
Elas existem para nos dar sustentação quando os ventos da vida tentam nos deslocar.
Foi então que a frase escrita tantos anos antes no meu primeiro livro ‘Paço a Passo’ deixou de pertencer apenas à literatura.
Ela estava diante de mim.
Na fotografia antiga.
Na fonte.
Nos meus filhos.
Nas minhas netas.
Na família reunida naquela pequena praça italiana.
Entre a fotografia de Ângelo e Maria Giovanna com os filhos e a nossa fotografia em San Bartolomeo in Galdo passaram-se gerações.
Mudaram os países.
Mudaram os idiomas.
Mudaram os costumes.
Mudaram as histórias.
Mas as raízes permaneceram.
Naquele dia, não bebemos apenas da água de uma fonte.
Bebemos da memória de uma família.
E finalmente compreendi a mensagem que, em meu primeiro livro, coloquei nos lábios de meu bisavô:
“Quando le radici sono profonde non c’è motivo di temere il vento.”
Porque os ventos podem atravessar oceanos, mudar destinos e espalhar uma família pelo mundo.
Mas, quando as raízes são profundas, sempre existe um caminho de volta.
José Luiz Ricchetti
Julho de 2026


