COLUNA DO RICCHETTI – O vinho mais caro da viagem

COLUNA DO RICCHETTI - O vinho mais caro da viagem

Há uma idade em que deixamos de comprar coisas.

Passamos a comprar histórias.

Foi assim, sem perceber, que entrei, junto com meu filho Gustavo, naquela pequena loja de vinhos no sul da Itália, mais especificamente na Puglia.

As prateleiras exibiam rótulos elegantes, nomes que pareciam carregar séculos de tradição e um vendedor que falava dos vinhos como quem apresentava membros da própria família.

Escolhemos duas garrafas.

Belíssimas.

Daquelas que imaginamos abrir em uma ocasião especial.

Pagamos sessenta euros por cada uma e saímos satisfeitos, convencidos de que havíamos feito um excelente negócio e que poderíamos saboreá-los no jantar daquela noite.

A felicidade durou até que meu outro filho, Thiago, horas depois, assim que nos sentamos à mesa do jantar, resolveu pesquisar o preço na internet.

Descobriu que os mesmos vinhos custavam praticamente a metade!

Por alguns segundos, fez-se aquele silêncio constrangedor que antecede as grandes gargalhadas.

E então todos começaram a rir.

Começaram rindo de nós dois, paspalhões.

Segundos depois, ríamos todos.

Da nossa confiança.

Da nossa ingenuidade de turista.

Da nossa cara de quem saiu da loja acreditando ter feito uma negociação memorável, quando, na verdade, havíamos financiado parte das férias do comerciante.

Quanto mais alguém comentava, mais engraçada a história ficava.

No fim da noite, percebi algo curioso.

Já não estávamos falando do vinho.

Estávamos falando da família.

Daquele momento em que ninguém precisou fingir elegância ou conhecimento. Bastou rir.

E talvez seja exatamente isso que as viagens fazem conosco.

Elas nos lembram de que não somos apenas turistas conhecendo lugares novos.

Somos pessoas colecionando episódios que um dia serão contados muitas vezes, sempre com alguns detalhes aumentados e muitas risadas a mais.

Hoje, terminado esse período maravilhoso de férias com toda a família, e escrevendo esta crônica aqui na frente do computador, sinceramente, confesso que já nem sei dizer como era o sabor exato daquele vinho.

Mas consigo ouvir perfeitamente o som das gargalhadas ao redor da mesa.

Então descobri que existe uma outra conta que nunca aparece na nota fiscal.

É o valor das lembranças.

Esse vinho talvez não valesse realmente a compra por cento e vinte euros.

Mas as risadas que ele comprou para toda a família…

Essas, definitivamente, não têm preço.

José Luiz Ricchetti

15 de julho de 2026

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