COLUNA DO RICCHETTI – Poeiras do Tempo

Acho que todos nós, em algum instante silencioso da vida, já nos flagramos diante do espelho fazendo a mesma pergunta antiga:

— Quem sou eu?

Às vezes ela vem acompanhada de outras, ainda mais profundas:

Por que nasci aqui?

Por que nesta cidade, neste país, neste tempo?

Lembro-me de uma palestra, anos atrás, em que um médium espírita afirmava que crianças que hoje morrem de fome na África teriam sido, em outra existência, criminosos da Segunda Guerra. Estariam, segundo ele, resgatando culpas antigas.

Não sei.

Não me cabe julgar crenças nem destinos. Mas aquela fala ficou suspensa em mim como poeira no ar — dessas que só o tempo decide se assentam ou não.

O que sei é que, quando olho para o nosso país, percebo o quanto somos privilegiados. Uma terra generosa, vasta em cultura, rica em recursos naturais, feita de cores, sons e sabores que se misturam como uma canção antiga. Um país onde a terra ainda responde ao trabalho do homem e a diversidade insiste em florescer, mesmo quando aqueles que deveriam zelar por ela parecem não estar à altura da grandeza que governam.

E então, quase sem perceber, o pensamento volta.

Volta sempre.

Volta para a infância.

Volta para a adolescência.

Volta para aquela cidade que nos moldou sem pedir licença.

Nascer numa pequena cidade do interior — e ainda no Brasil — é uma dessas bênçãos silenciosas que só a maturidade nos ensina a agradecer. Quando falo da minha pequena cidade natal de São Manuel, não falo apenas aos meus conterrâneos. Falo a todos que tiveram a sorte de nascer onde as pessoas se conheciam pelo nome, pelo sobrenome e, principalmente, pelo caráter.

Cidades pequenas, forjadas por imigrações semelhantes, por valores comuns, por uma educação que começava em casa e se estendia à rua. Lugares onde a infância era rica não pelo que se tinha, mas pelo que se vivia — uma riqueza difícil, talvez impossível, de repetir nos dias de hoje.

Foi ali que aprendemos a ser gente.

Ali fizemos amigos para a vida inteira.

Ali as famílias se conheciam, se ajudavam, se respeitavam.

Não havia rótulos. Não havia divisões. Éramos de uma geração que ainda não conhecia o preconceito — apenas a convivência.

Muitos partiram. Outros ficaram. Alguns voltaram. Mas todos, absolutamente todos, carregam algo em comum: a certeza de pertencer. Porque quem nasce em cidade pequena nunca deixa de ser conterrâneo, mesmo morando longe. Há uma irmandade invisível que resiste ao tempo e à distância.

Nessas cidades vivemos os primeiros amores e também as primeiras dores. Ali aprendemos a perder, a ganhar, a esperar. Ali nossa alma foi acrescida de experiências que ficaram envoltas por uma cortina delicada de solidariedade, amizade e afeto.

Alguns amigos já se foram para outros mundos. Outros seguem caminhando por aquelas mesmas ruas. Outros partiram, mas nunca foram embora de verdade. Todos ajudaram a construir essa egrégora invisível que nos acompanha vida afora, mesmo quando não percebemos.

Ruas.

Praças.

Jardins.

Igrejas.

Quermesses.

Procissões.

Escolas.

E, acima de tudo, o relógio do Paço Municipal, marcando as horas, os encontros, as despedidas. Um tempo que moldou gerações, hábitos e afetos — e que nem todos aprenderam a escutar, talvez porque não o tenham vivido, talvez porque não saibam que a história não se governa apenas com decretos, mas com memória.

Há tempos que não se aprendem nos livros nem nos cargos. Precisam ser atravessados. E quem não atravessou aqueles dias, suas tradições e seus rituais, dificilmente compreende o valor silencioso do que herdamos.

Hoje, quando olhamos para trás, sentimos uma melancolia mansa ao perceber o quanto o tempo correu mais rápido do que desejávamos.

E quando voltamos — ah, quando voltamos — basta pisar naquelas ruas para que tudo reapareça: os amigos, as namoradas, as aventuras, os aprendizados, os sabores simples, o ar puro com cheiro de flor.

Percebemos então que, por mais belas que sejam as cidades que conhecemos pelo mundo, nenhuma se compara àquela onde nascemos quando o assunto é saudade. Nenhuma.

O tempo passou, é verdade. Mas se prestarmos atenção, ainda podemos sentir as brumas leves que o vento empurra, carregadas dessas poeiras invisíveis.

Poeiras do Tempo.

Elas se transformam em saudades difíceis de esconder, guardadas exatamente ali — do lado esquerdo do peito. São elas que nos ajudam a envelhecer melhor, observando a vida passar pela janela, ao ritmo silencioso das horas marcadas pelo velho relógio do Paço Municipal.

Ah… Poeiras do Tempo.

Teimosas.

Persistentes.

Reacendem lembranças, feridas antigas, mas também aquelas marcas bonitas que julgávamos perdidas. Marcas deixadas por quem passou por nós — e por aqueles que partiram antes mesmo do seu tempo.

E é assim que seguimos:

com o coração um pouco empoeirado…

mas infinitamente mais rico.

José Luiz Ricchetti – 12/01/2026

Políticas de privacidade

Este site usa cookies para que possamos oferecer a melhor experiência de usuário possível. As informações de cookies são armazenadas em seu navegador e executam funções como reconhecê-lo quando você retorna ao nosso site e ajudar nossa equipe a entender quais seções do site você considera mais interessantes e úteis.

posjp33

posjp33

posjp33