
Na noite de Natal,
o mundo respira mais devagar.
As casas se inclinam em silêncio
como se escutassem
o próprio coração do tempo.
Não há montanhas de ouro,
nem anjos dourados de vitrine.
Há o cheiro do café passado tarde,
o assado que demora no forno,
a rua quente, parada sob o ar pesado do verão.
As estrelas descem baixo,
quase ao alcance das mãos,
e pousam nos telhados antigos
como se soubessem
que o céu ainda conversa com a terra.
Os sinos não anunciam milagres,
apenas lembram:
— Ainda estamos vivos.
Ainda é possível.
As crianças inventam luz
com olhos acesos,
os adultos fingem calma
para esconder saudades antigas,
e os ausentes se sentam à mesa
em forma de lembrança.
Não há noite completa,
nem dia inteiro.
Há esse intervalo bonito
em que a alma se abre
sem pedir licença.
O Natal não promete salvação,
oferece presença.
Não cura todas as dores,
mas aquece o que ficou frio.
E quando a madrugada chega,
ninguém sobe ao céu
nem foge da terra.
Permanece.
Com passos lentos,
histórias sussurradas,
um jeito simples de dizer:
— O divino também mora aqui,
entre gente imperfeita,
mesa posta
e esperança quieta.
José Luiz Ricchetti – 25/12/2025


