
Havia, lá na Aparecida de São Manuel, uma figura que não precisava de anúncio de rádio nem de cartaz colado na venda do Guarantã para atrair gente: Dona Francisca. Preta velha, descendente de escravos, mãos calejadas de história e um olhar que misturava sabedoria, paciência… e uma pitada de ironia que só quem já viu muito da vida sabe usar.
A fila em frente à casinha dela começava cedo e parecia não terminar nunca. Gente de tudo quanto era canto: da Vila São Geraldo, do Centro, da Vila Santa Helena, da Fazenda Lajeado, e de cidades da região como Areópolis, Lençóis, Jahú, Botucatu, etc. Uns vinham com dor de cabeça, outros com “encosto”, outros só com aquele mau-olhado básico que toda sogra envia sem querer — ou querendo. E ali, na pracinha da Aparecida, o vento carregava arruda, guiné e risadas.
Dona Francisca era daquelas benzedeiras que surgiram do encontro de muitos mundos. Dos índios, ela trazia o respeito às plantas. Dos africanos, a força dos rituais. Dos europeus, a reza católica que ela misturava sem culpa, porque, para ela, cura boa mesmo era aquela que funcionava. E ao que parece… funcionava muito.
Mas o que ninguém esquece são os causos, porque a fé curava, mas o humor resolvia o resto.
Um dia, chegou um homem se queixando de uma dor de cabeça tão forte que parecia que duas bandas de terreiro estavam batucando dentro do crânio.
— Dói aqui, D. Francisca… aqui, ó, bem atrás do olho! — dizia ele, desesperado.
Ela passou água, soprou a reza, fez o sinal da cruz com a linha… e sentenciou, séria:
— Isso não é dor de cabeça, meu filho. Isso é vento virado.
— Vento… o quê?
— Virado. A ventania entra por um canto errado e embaralha o juízo da gente.
E, como se explicasse a coisa mais lógica do mundo, completou:
— Mas fique tranquilo. Hoje eu desentorto.
E desentortou.
Outra vez, Dona Francisca recomendou um chá com arruda e guiné para uma moça aflita com “peso nos ombros”. A moça, talvez emocionada, talvez perdida na receita, talvez só confusa mesmo… foi pra casa e, em vez do chá, cozinhou a arruda no feijão.
O marido comeu.
Não morreu — mas arrotou proteção espiritual por três dias seguidos.
As crianças, então, eram um espetáculo à parte. Na hora do ritual do “quebranto”, com o ramo molhado d’água batendo leve na testa, tinha de tudo: criança que espirrava na cara dela, criança que ria, criança que chorava como se estivesse sendo exorcizada.
Dona Francisca nem piscava:
— Tá limpando. Choro é bom. É o mal indo embora pela lágrima.
Só ela conseguia transformar desespero infantil em teologia.
E o tempo passou. A pracinha mudou, os carros ficaram modernos, o mundo correu mais rápido do que o vento virado que ela curava. Mas as benzedeiras continuam por aí — algumas tentando adaptar a sabedoria antiga ao mundo digital.
Outro dia, ouvi falar de uma neta que pediu à avó benzedeira a receita para “dor no estômago”. A avó, toda poderosa, respondeu:
— Minha filha… pega o Google pra vovó aqui, que eu esqueci se é capim-cidreira ou erva-de-São-João.
Modernidade é isso: a reza continua, mas com Wi-Fi.
E teve também a benzedeira que benzeu até o carro novo do vizinho, pra espantar o mau-olhado da rua inteira.
— Carro também pega olho gordo, minha filha. Ainda mais se é zero quilômetro.
E queimou um galhinho de arruda do lado do tanque.
O carro não deu problema por um ano inteiro — coincidência ou fé, ninguém sabe.
Dona Francisca, se estivesse viva hoje, provavelmente daria risada dessa mistura toda. Talvez pedisse para o neto “abrir a tal da internet” só para ver se alguém descobriu uma nova erva milagrosa. Mas, no fundo, continuaria igual: sentadinha na porta da casa, raminho na mão, rezando baixinho e levantando o olhar de vez em quando com aquele jeito que dizia:
“Você pensa que está doente… mas é só descuido de alma.”
E eu, que tive o privilégio de conhecê-la, ainda acredito que certas curas não vêm da planta, nem da reza.
Vêm do afeto.
Da fé simples.
E do humor com que ela enxergava o mundo.
Porque, afinal, Dona Francisca não benzia só gente.
Ela benzia o tempo.
E benzia a vida da gente também.
José Luiz Ricchetti – 29/11/25


