
Carros antigos não têm pressa.
Eles não correm — eles passeiam.
Enquanto os modelos modernos aceleram como se estivessem fugindo de alguma coisa, ou andam silenciosos, como os elétricos, os antigos andam como quem saboreia cada segundo da estrada.
Quem dirige um carro antigo não está indo para algum lugar. Está voltando de algum tempo.
E talvez por isso, ao volante de um desses senhores sobre rodas, o mundo ao redor muda de ritmo.
As buzinas se calam, os olhares se voltam, e até os semáforos parecem respeitar sua elegância.
Porque carro antigo tem alma.
Tem cheiro de banco de couro misturado com história, tem barulho de motor que fala baixo, mas com autoridade.
Tem porta que fecha com estalo firme, tem volante que é quase um timão de navio e marcha que exige carinho — não força.
Dirigir um carro antigo é como dançar com a memória: cada curva é um passo de valsa, cada rua é um salão, cada ronco do motor é um sussurro do tempo.
Lembro do Fordão do meu avô, que mais parecia um navio negro navegando pelas avenidas da minha cidade natal, São Manuel.
Todo domingo ele o lavava como quem dá banho num cavalo de raça.
Dava duas voltas no quarteirão, parava na frente do coreto e dizia:
— Agora sim. Pode começar o desfile.
E começava.
Gente acenava, crianças apontavam, e os mais velhos sorriam como se reencontrassem um velho amigo.
Porque carro antigo não passa despercebido — ele é saudade sobre rodas.
Hoje, quando vejo um desses raros exemplares pela rua, desacelero.
Dou passagem. Não por gentileza, mas por reverência.
Ali vai um tempo que se recusa a morrer.
Vai desfilando — como um rei em sua última glória.
E quem sabe, com sorte, me dá uma carona… nem que seja só na lembrança.
José Luiz Ricchetti – 09/09/2025


