COLUNA DO RICCHETTI – O que queima por dentro

COLUNA DO RICCHETTI - O que queima por dentro

Ela tem tudo.

Ou quase tudo.

Tem marido, filhos, uma carreira respeitada, viagens guardadas em fotografias, uma casa confortável e aquela aparência de vida organizada que tantas pessoas invejam em silêncio. A vida dela, vista de fora, parece completa — dessas que caberiam facilmente numa propaganda de felicidade.

Mas existe um silêncio dentro dela.

Um silêncio que nenhuma viagem preenche, nenhum sucesso profissional explica e nenhum jantar em família consegue calar.

Ela se pergunta todos os dias, ainda que não diga isso a ninguém:

o que me falta?

E a pergunta dói, porque aparentemente nada falta.

Casou-se muito cedo. Tão cedo que mal teve tempo de se conhecer antes de prometer amar para sempre. Era aquele amor adolescente que parecia natural, quase inevitável. O namoro começou inocente, caminhando pela praça de mãos dadas, sob o olhar atento das famílias.

Naquelas cidades — ou naquelas mentalidades — a pergunta nunca era “vocês se amam?”

A pergunta era sempre outra:

Ele é filho de quem?

E assim, quase sem perceber, o destino foi sendo escrito mais pelas expectativas dos outros do que pela voz do coração.

Vieram os anos, o noivado, o vestido branco, a igreja cheia. E ela saiu de lá casada antes mesmo de entender direito o que era amar.

Porque amar de verdade…

amar de verdade é outra coisa.

É aquele choque que atravessa o corpo como um relâmpago.

É aquela presença que desorganiza a alma.

É aquele encontro que faz o coração bater como se tivesse descoberto a própria existência.

Nada disso aconteceu.

O amor dela nunca foi uma tempestade.

Foi um lago calmo.

Calmo demais.

Nunca houve vertigem. Nunca houve aquele fogo que faz a gente esquecer o mundo. Nunca houve aquela paixão que deixa o corpo em transe e a alma espantada diante da intensidade do que sente.

Foi um amor educado.

Um amor correto.

Um amor que cumpriu todos os protocolos — mas talvez nunca tenha incendiado nada.

E o tempo passou.

Vieram os filhos, e com eles uma alegria real, profunda. O amor de mãe é uma coisa absoluta. Mas às vezes, quando a casa fica silenciosa e a noite se alonga, ela se pergunta se aquele amor não acabou ocupando o espaço que o amor de mulher nunca conseguiu preencher.

Hoje os filhos crescem.

Já não precisam tanto dela.

E é nesse momento que algo dentro dela começa a acordar.

Uma inquietação antiga.

Uma sensação de que talvez tenha vivido a vida inteira dentro de uma história que nunca foi totalmente sua.

Quando conhece alguém interessante — uma conversa diferente, um olhar curioso, uma presença que provoca algo esquecido — ela sente um leve tremor por dentro. Não é apenas desejo.

É algo mais profundo.

É a percepção tardia de que talvez nunca tenha experimentado o que tantas músicas, tantos livros e tantas histórias chamam de paixão.

Não aquela paixão irresponsável dos romances baratos.

Mas aquela que faz a alma expandir.

Aquela que nos lembra que estamos vivos.

E então vem o pensamento proibido.

E se minha vida tivesse sido diferente?

E se ela tivesse amado outras vezes?

E se tivesse conhecido outros homens?

E se tivesse se permitido errar, sentir, se perder e se encontrar de novo?

E se, um dia, tivesse ousado ouvir a própria alma antes de ouvir o mundo?

A pergunta não é sobre trair.

Não é sobre abandonar tudo.

É mais profunda que isso.

É sobre ter vivido.

Porque há pessoas que sofrem por terem escolhido caminhos errados.

Mas existem outras — como ela — que sofrem por nunca terem escolhido caminho algum.

A vida apenas aconteceu.

E agora, quando o espelho devolve um rosto maduro, bonito ainda, mas atravessado pelo tempo, ela percebe que existe uma chama dentro dela que nunca chegou a se transformar em fogo.

Uma chama que nunca foi autorizada a arder.

E essa talvez seja a forma mais silenciosa de tristeza:

descobrir que se tem quase tudo… e ainda assim sentir que a alma permaneceu intocada.

Às vezes ela pensa se deveria ousar.

Não necessariamente fugir, romper, destruir o que construiu. Mas ao menos tocar essa parte dela que ficou adormecida durante tantos anos.

Outras vezes pensa em esperar.

Esperar os netos chegarem.

Esperar que a vida continue seguindo seu roteiro tranquilo.

Esperar que o tempo transforme essa inquietação em resignação.

Mas no fundo ela sabe:

Existem vazios que não desaparecem.

Eles apenas aprendem a ficar em silêncio.

E talvez o grande drama da vida não seja perder o amor.

Talvez seja descobrir, tarde demais, que nunca se permitiu senti-lo plenamente.

Porque existem mulheres que vivem histórias intensas.

Existem mulheres que vivem histórias felizes.

E existem aquelas que carregam dentro de si uma pergunta que o tempo nunca consegue responder:

Como teria sido se eu tivesse ousado amar de verdade?

José Luiz Ricchetti -15/03/26

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