
Terminei o churrasco com a preguiça típica dos verões do interior. Algumas caipirinhas a mais, o corpo morno, o mundo desacelerando. Deitei-me na rede como quem se entrega ao colo do tempo.
O sol ainda brilhava alto, refletindo na piscina como se fosse outro céu deitado na água. Peguei o celular, deixei que o acaso escolhesse as marchinhas e, antes que o sono me roubasse por completo, ouvi os primeiros versos:
“Quanto riso, oh, quanta alegria…”
E foi como se o portão invisível da memória se abrisse.
Viajei.
Não para longe — mas para dentro.
Voltei aos meus quinze anos. Voltei ao Tênis Clube da minha cidade natal São Manuel. Voltei ao salão cheio de famílias, perfumes doces, cabelos engomados, vestidos rodados e sonhos ainda intactos.
Era 1967.
As mesas tinham dono, as famílias tinham sobrenome, os pais tinham autoridade e nós — adolescentes afoitos — tínhamos pressa de viver. Fazíamos nosso ritual sagrado: circular pelas mesas dos tios para “filar” um gole de whisky escondido, mastigar um salgadinho, fingir maturidade.
A banda tocava marchinhas com uma alegria que não cabia no palco. Não eram músicos famosos — eram nossos. O De Paula que não era o Benito, o Tostão que não era jogador, o Pudim que não era o doce, o Arnaldo que não era o juiz. Eram parte da nossa história, tocando não só instrumentos, mas nossas adolescências.
E então ela.
A “menina de fora”.
Morena de cabelos cacheados, olhos cor de mel. Chegava no carnaval como quem trazia o próprio verão nos passos. Era filha de uma família, recém-mudada para a capital, mas para mim era a linda Colombina que trazia o brilho aos meus carnavais.
Quando tocava:
“Eu sou aquele Pierrô que te abraçou e te beijou, meu amor…”
O salão desaparecia.
Havia apenas o perfume dela, a mão suada na minha, o sorriso cativante e o beijo roubado nas marchinhas lentas do final da noite.
Naquele tempo, tudo era inocência. As músicas eram cantadas com gargalhadas francas. Ninguém buscava ofensa onde só havia riso. Não havia militâncias, havia travessuras. Não havia julgamentos, havia confete.
Nosso carnaval era improviso e afeto.
As fantasias eram costuradas pelas mães e avós — cada ponto uma declaração de amor silenciosa. Tínhamos nossos “prisioneiros”, nossas colombinas, nossos piratas. A bola de ferro era de isopor, mas a liberdade era verdadeira.
Havia o corso no jardim, as bisnagas de água, o cheiro doce do lança-perfume no ar. Havia o trem da alegria chegando com gente pendurada nas janelas, cantando músicas proibidas que só eram proibidas na teoria — porque na prática eram apenas juventude em ebulição.
Era simples.
E por isso era grandioso.
De repente, no meio do sonho, vi-me sentado na arquibancada, ainda vestido de presidiário, com a corrente presa ao tornozelo e uma ressaca monumental martelando a cabeça. Ri sozinho. O susto tinha sido maior que a realidade.
— Vai pra casa, garoto! — ouvi a voz do velho Seu Jorge.
E eu fui.
Cambaleando pelas ruas da cidade que hoje mora apenas na lembrança.
……
Sinto um leve sacudir.
— Já é tarde. Levanta.
Abro os olhos. Estou na rede. A piscina diante de mim não é a do Tênis Clube. É a da minha casa.
O Spotify, como se também tivesse saudade, começa a tocar:
“Bandeira branca, amor…”
E eu compreendo.
Nossos carnavais não eram melhores porque tinham mais brilho.
Eram melhores porque nós éramos mais inteiros.
Porque dançávamos sem medo de parecer ridículos.
Amávamos sem medo de parecer frágeis.
Vivíamos sem medo de parecer excessivos.
Hoje o mundo é mais sofisticado.
Mas aquele carnaval era mais verdadeiro.
E enquanto a música termina, eu fecho os olhos por um instante e agradeço.
Porque o tempo pode levar o salão, a banda, a minha Colombina…
Mas não leva aquilo que um dia fomos.
E dentro de mim, em algum lugar onde o confete nunca cai no chão,
o carnaval ainda continua.
José Luiz Ricchetti – 16/02/26


