
Dizem que o povo brasileiro tem três coisas levadas a sério: café forte, conversa na calçada e português bem falado. Não necessariamente nessa ordem.
Porque, convenhamos, português não é para amador.
Lá na praça da república, entre um banco e outro — sem acento no banco, mas com acento nas discussões — sempre aparece um poeta de ocasião. Foi um desses que sentenciou:
“Entre doidos e doídos, prefiro não acentuar.”
A plateia riu. Uns de dor, outros de dó.
No Brasil, o sujeito pode até não saber onde fica a crase, mas sabe que não é a mesma coisa gostar de carne e gostar de carnê. Porque carne alimenta o corpo; carnê alimenta boleto. E ninguém ali prefere coco a cocô por descuido gráfico — é por sobrevivência social mesmo.
Há dramas maiores.
O cágado, por exemplo. Animal pacato, respeitável, que tem sua dignidade ameaçada toda vez que alguém resolve economizar no acento. O bicho já anda devagar; ainda precisa carregar erro ortográfico nas costas?
E o cotidiano segue perigoso.
Quem baba não é babá — embora em festa de família às vezes as funções se confundam.
Quem bebe não é bebê — ainda que alguns ajam como tal.
Você vai à secretaria falar com a secretária, e ai de quem esquece o acento: pode acabar falando com o setor errado e saindo com um protocolo em vez de um sorriso.
Na capital, seus pais vêm do mesmo país — e fazem questão de explicar a diferença. Assento é onde você senta; acento é onde a palavra se sustenta. Um fica embaixo, o outro em cima. E embaixo é junto, enquanto em cima é separado — porque o português, além de língua, é teste de atenção.
Teve um que perguntou se maio era o melhor mês para usar maiô. Outro quis saber quem sabe mais: a sábia ou o sabiá. A discussão só terminou quando alguém citou Pelé — e ninguém soube explicar o que a pele do Pelé tinha a ver com a conversa, mas a comparação ficou bonita.
Por aqui, todo mundo desconfia do camelô, mas ninguém desconfia do camelo — talvez porque nunca tenham visto um na rua principal. E enquanto a fábrica fabrica, o povo filosofa: se tudo que se musica vira música, então tudo que se vive vira vívido? Ou vivido? Ou os dois?
Há também o eterno drama do mas e do mais. Quem escreve “mais” quando é “mas” erra demais. Mas — veja bem — se prestar atenção, não erra mais. É quase um exercício espiritual.
Na sexta, alguém comprou uma cesta depois da sesta. Foi a primeira vez que tu não o vês, comentou uma senhora, orgulhosa do “vês” com acento circunflexo, usado como quem exibe porcelana fina.
Em tempos de política, vão tachar de ladrão se taxar alto a taxa da tacha. E enquanto um assoava o cervo na panela de aço, o servo aguardava, paciente, o momento de servir — porque até a humildade precisa de ortografia correta.
Entre nevoeiro e portanto, concerto e conserto, esposa e empossar, o povo segue firme. Pode até errar uma vírgula, mas não erra na convicção: português é detalhe que muda destino.
No fim das contas, na dúvida, com um pouquinho de contexto, todo mundo entende aquilo que o outro publica. O público pode até perdoar um deslize, mas reconhece quando há cuidado.
E assim a cidade segue — entre doidos e doídos, entre mas e mais, entre o amem e o amém.
Porque, realmente, português não é para amador.
José Luiz Ricchetti – 27/07/26


