
Há um tipo curioso de solidão que não anda mais pelas ruas — ela desfila nos grupos de WhatsApp do condomínio.
Não bate à porta: posta.
Não conversa: reage.
Não constrói: performa.
É ali, naquele retângulo iluminado, que alguns moradores encontram palco para parecerem mais do que são e dizerem mais do que sentem. Gritam em letras maiúsculas, distribuem indignações em série, convocam plateias invisíveis para legitimar pequenas guerras pessoais. Não querem solução. Querem aplauso. Não buscam diálogo. Buscam torcida.
Chamam isso de participação.
Mas é carência travestida de civismo.
Vivemos o tempo da intimidade artificial, expressão tão precisa quanto incômoda, discutida por Esther Perel, que nos lembra que nunca estivemos tão conectados e tão ausentes ao mesmo tempo. A atenção virou migalha. A escuta, luxo. O conflito — que exige maturidade — foi substituído pela postagem, que exige apenas dedo e ego.
No microcosmo do condomínio, esse fenômeno ganha contornos quase didáticos. Quanto mais alguém grita nas redes internas contra o síndico, mais revela sua fome de pertencimento. Quanto mais acusa, menos conversa. Quanto mais expõe, menos tem intimidade real para resolver olho no olho, corredor a corredor, café a café.
Há quem confunda grupo com amizade.
Há quem confunda curtida com afeto.
Há quem confunda barulho com relevância.
E assim surgem os justiceiros de tela, especialistas em tudo, íntimos de ninguém. Pessoas que usam o coletivo como espelho, esperando que o reflexo devolva aquilo que a vida fora da tela não deu: amigos, escuta, reconhecimento. O condomínio vira confessionário público de frustrações privadas.
O mais triste é que, por trás do ataque constante, das acusações sem lastro e das ofensas gratuitas mora um bebê emocional gritando por atenção — como naquele experimento antigo em que o silêncio do outro vira desespero. Somos, ao mesmo tempo, quem paralisa o rosto e quem chora diante dele.
Talvez por isso doa tanto desligar o celular e encarar a conversa difícil. Porque ali não há filtro, nem plateia, nem botão de sair. Há o risco do humano: discordar, ceder, ouvir, crescer.
A rebeldia do nosso tempo não é postar mais.
É conversar melhor.
É trocar o grupo pelo encontro.
O ataque pelo argumento.
O “parecer” pelo “ser”.
No fim, as redes sociais do condomínio não revelam quem administra mal. Revelam quem anda sozinho demais — e grita alto para ver se alguém responde.
E quase nunca responde.
José Luiz Ricchetti – 07/02/25


