
Na minha terra, mentiroso tinha aos montes — mas nenhum deles batia o recorde do barbeiro de São Manuel. Era o campeão da lorota, o Pelé da conversa fiada, o presidente vitalício da Associação dos Mentirosos Profissionais. E o mais engraçado é que muitas mentiras atribuídas a ele nem eram dele…, mas ele assumia todas com a elegância de quem assina autógrafo. Se a história era boa, ele deixava colar.
A barbearia dele era um ponto de encontro tão famoso que, se São Manuel tivesse esquina de boatos, seria ali. Havia dias em que mais de dez sujeitos se acotovelavam no pequeno salão, e apenas dois ou três tinham real interesse em cortar o cabelo. O resto estava lá para trabalhar firme na única atividade que dominavam com excelência: conversar e cuidar da vida alheia.
Era um burburinho danado: navalha que tinia, cadeira que rangia, gargalhada que ecoava até a rua. E quando o barbeiro começava a falar, até o rádio de pilha diminuía o volume sozinho, por respeito.
Pois bem. Numa tarde quente — daquelas em que o vento parece entediado — a barbearia estava lotada. Foi quando entrou o Zeca, outro mentiroso de marca registrada. Quando ele apareceu, o pessoal quase alinhou as cadeiras como quem prepara plateia de circo. Ali, sabiam: vinha mentira de primeiríssima qualidade.
— Ô, Zeca, cê sumiu, homem! — puxou assunto um dos desocupados.
— Tava uns dias na roça — disse ele, ajeitando o chapéu — pescando lá na beira do Araguá.
— E pegou peixe?
— Peixe até que pouco… — disse ele, com aquele ar de quem está prestes a aprontar — mas os lambaris… ô gente… cada baita lambari! O maior pesou três quilos.
A barbearia silenciou. Três quilos? Um lambari? O pessoal fez a conta rápida de cabeça. Um lambari pesa o quê? Quinze gramas? Vinte, no máximo? Para chegar a três quilos, só se fosse um lambari criado no Vaticano e abençoado pessoalmente pelo Papa.
Mesmo assim, ninguém queria ser o primeiro a cruzar o Zeca. Mas sempre tem um corajoso — ou imprudente:
— Ô, Zeca… lambari de três quilos? Cê tá de brincadeira…
Antes que o Zeca inflamasse como pólvora, o Barbeiro entrou em cena. Ah, o Barbeiro! Para ele, mentira era esporte olímpico. Aproximou-se devagar, limpou a navalha no avental, pigarreou e declarou com solenidade:
— Pode ser sim… pode ser sim… aquele rio é muito esquisito.
O pessoal já se ajeitou no banco. Lá vinha.
— Um dia — começou ele — tava pescando lá, numa ‘ceva’ que eu mantenho numa curva do rio e fisguei um bicho tão pesado que quase me levou junto. Puxei, puxei… e sabe o que saiu do rio?
A roda respondeu em coro:
— Hum… hum…
— Um lampião aceso!
A barbearia explodiu em gargalhada. Só o Zeca não. Ele se levantou da cadeira num pulo:
— Cê tá me tirando? Onde já se viu tirar lampião aceso do fundo do rio?!
O Barbeiro sorriu com aquele ar de quem já nasce pronto pra pecado venial e respondeu:
— Zeca… ocê diminui um pouco o tamanho do seu lambari que eu apago o meu lampião.
E assim se encerrava mais um expediente na barbearia mais mentirosa — e mais divertida — de São Manuel.
José Luiz Ricchetti – 10/12/25


