COLUNA DO RICCHETTI – A Benção do Sereno

Havia noites em que São Manuel parecia maior do que o mundo. Não por causa das ruas ou das casas, mas pelo silêncio. Um silêncio tão fundo que fazia a alma tropeçar — silêncios impressionantes como um buraco na eternidade, onde até os pensamentos andavam na ponta dos pés para não acordar o infinito.

Eu gostava dessas noites.

Saía devagar, como quem não quer assustar o destino, e caminhava até o quintal da Casa Ricchetti. Ali, entre o cheiro de terra molhada e o sussurro das mangueiras, eu tinha a certeza de que existiam milagres discretos. Minha avó dizia que Deus benzia a terra com a água benta do sereno, e que era por isso que certas manhãs nasciam com gosto de perdão.

E eu acreditava. Ainda acredito.

A noite, vaidosa, deslizava pelo céu puxando atrás de si uma cortina de estrelas entrelaçadas, como se fosse costureira de um manto antigo — daqueles que protegem os viajantes que perdem o caminho e, mesmo assim, não perdem a esperança.

E então chegava o crepúsculo.

Ah, o crepúsculo…

Esse eterno artesão do tempo.

Ele se derramava pelo horizonte, lento como quem não deseja ir embora, tingindo tudo com aquele laranja que sempre parece uma promessa — ou um adeus bem-educado, desses que ainda viram para olhar para trás só para garantir que a gente está vendo a despedida.

E a cidade, coitada, fingia acordar só para acompanhar o espetáculo. Despertava como uma embarcação de sonhos navegando pelas sombras, balançando entre memórias antigas e desejos que ainda não tinham coragem de nascer.

E eu ficava ali.

Entre o sereno e as estrelas.

Entre o silêncio e o crepúsculo.

Entre aquilo que já vivi e aquilo que ainda procuro.

Porque, no fundo, toda noite carrega um pedaço do que fomos…

E todo amanhecer devolve o que ainda podemos ser.

José Luiz Ricchetti

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