COLUNA DO RICCHETTI – O sentido da vida

Na pequena ilha de Okinawa, o vento sopra devagar, como se também meditasse. As pessoas caminham sem pressa, os rostos serenos, os olhos em paz com o tempo. Foi lá que aprendi uma palavra que nunca mais esqueci — Ikigai — a razão de viver.

Dizem que cada um de nós tem um Ikigai adormecido, esperando ser acordado pelo toque suave da consciência. Para alguns, ele mora nos filhos; para outros, no trabalho; para alguns poucos, no simples ato de contemplar o nascer do sol. Em Okinawa, percebi que a vida se alonga não porque o corpo é forte, mas porque o espírito encontra um motivo para continuar.

Anos depois, ao ler a história do psiquiatra Viktor Frankl, que sobreviveu ao holocausto e seu livro “Em busca de Sentido”, percebi que o mesmo sopro que alimentava os anciãos japoneses também sustentou aquele homem nos campos de extermínio. Ele havia perdido tudo — o nome, a família, o manuscrito, o futuro —, mas guardou o que ninguém poderia arrancar: o sentido.

Frankl entendeu, em meio ao horror, o que o Ikigai revela em meio à harmonia: quem tem um porquê suporta qualquer como.

Enquanto os prisioneiros perdiam a esperança, ele acendia pequenas luzes de propósito. Perguntava: “Quem te espera lá fora?” “Que promessa ainda vive em ti?” Não oferecia pão, mas oferecia a possibilidade de sonhar.

E é esse sonho que mantém o coração batendo, mesmo quando o mundo desaba.

Porque o homem não vive apenas de ar e alimento — vive de significado.

Eu, que já caminhei por tantos lugares, percebo hoje que o sentido da vida é um viajante silencioso que nos acompanha desde sempre. Às vezes, ele se disfarça de amor; outras, de perda. Mas está sempre ali, sussurrando: não desista, há algo mais por fazer.

O Ikigai e Viktor Frankl me ensinaram que a verdadeira liberdade está dentro, e que o mais belo milagre humano é poder escolher a atitude diante do destino.

E talvez seja isso o que chamamos de viver: continuar acreditando que, mesmo depois da tempestade, o vento voltará a soprar — suave, sereno — como aquele vento que senti um dia em Okinawa, quando descobri que o meu próprio Ikigai era escrever sobre a alma dos homens.

José Luiz Ricchetti – 03/11/25

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