COLUNA DO RICCHETTI – O Caramanchão

Voltei a caminhar por aquele velho caramanchão, o mesmo de tantos dias em que a pressa ainda não tinha tomado conta de mim. A minha terra natal parecia a mesma — árida e silenciosa — mas eu sabia que era eu quem havia mudado. As figueiras em volta do coreto, já cansadas de ver tanta gente ir embora, balançavam ao vento como quem acena para o passado. A carranca do vai e vem parecia chorar.

Ali, tudo parecia imóvel, como se o tempo tivesse parado para respirar. Reconheci os bancos gastos pelo sol, os mesmos em que me reunia com os amigos, lado a lado, falando de tudo e de nada, acreditando que o mundo cabia dentro das nossas mãos. Sentei-me ali, e o murmúrio do vento nas folhas das palmeiras me devolveu o som antigo das nossas risadas.

Pensei em como as coisas simples vão embora — não com um estrondo, mas com um suspiro. A simplicidade, essa velha amiga, parece ter se escondido num canto do tempo, junto dos gestos que não exigiam recompensa e dos silêncios que diziam mais do que mil palavras.

Fechei os olhos e, por um instante, estive de novo naquele lugar que só o sonho de um adolescente conhecia.

O vento tinha o mesmo cheiro, o mesmo toque de eternidade breve.

E percebi que talvez o lugar não fosse exatamente aquele pedaço de terra envolto por um jardim, mas o espaço invisível entre jovens almas que um dia se falavam sem precisar dizer nada – jovens em busca de uma nova vida, de um futuro que aquela terra não podia mais nos dar.

Porque há lugares que o tempo não alcança — moram dentro da gente, nas pausas, nas entrelinhas, nos ecos do que não voltará.

E é ali que a vida repousa quando cansa de ser adulta demais.

José Luiz Ricchetti – 02/11/25

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