
Há homens que nascem com asas invisíveis. Marcelo era um deles.
Não se contentava apenas em pisar firme a terra, queria sentir a vertigem do infinito, o vento cortando o rosto, o silêncio que só os céus conhecem. Paraquedista de alma, advogado de ofício, marido apaixonado, pai amoroso, filho exemplar, irmão dedicado — cada salto era metáfora da vida: lançar-se no desconhecido, confiando que o amor o sustentaria como paraquedas aberto.
Na rotina dos tribunais, ele defendia com palavras; em casa, defendia com gestos. Nos abraços da esposa, encontrava porto seguro; nos olhos da filha, via seu maior legado; no olhar dos pais, no abraço do irmão, deixava a certeza de orgulho, respeito e gratidão. Talvez por isso fosse tão apaixonado pela vida: sabia que amor e coragem são feitos da mesma matéria.
Ontem, porém, o céu o reclamou antes da hora. Um salto que não se transformou em pouso, mas em travessia. Ficamos nós, os que permanecem aqui neste mundo, a segurar esse vazio que só os que amam conhecem — vazio que não se preenche, mas se transforma em memória.
Marcelo não partiu. Ele agora habita o horizonte. Está no riso da filha, na força da esposa, no coração dos pais, no abraço do irmão e na lembrança de cada amigo que o viu viver intensamente. Está no vento, no céu azul, em cada olhar que se erguer para o alto.
A vida, tantas vezes breve, é também infinita quando semeada de amor. Marcelo nos deixou cedo demais, mas deixou muito de si em cada um de nós. E assim, quando a saudade nos apertar, basta olhar para o céu: lá estará ele, sorrindo, lembrando que voar é também amar.
José Luiz Ricchetti – 29/08/2025