Crônica: O LIVRINHO DE ORAÇÕES

Crônica: O LIVRINHO DE ORAÇÕES

cabeca-ricchetti Crônica: O LIVRINHO DE ORAÇÕES

Durante muitos anos, junto com um grupo de amigos, eu ajudei uma casa de repouso de velhinhos da periferia de São Paulo.

Normalmente nós levávamos mantimentos, materiais de limpeza, roupas e nas festas principais, como a festa junina, páscoa e natal, fazíamos algo especial para aqueles velhinhos, na grande maioria abandonados pela família.

215.1-O-livrinho-de-oracoes-2 Crônica: O LIVRINHO DE ORAÇÕES

Além das coisas materiais, nós sempre dedicávamos um tempinho para conversar com eles, dando assim um pouco de atenção e carinho, coisas, que na verdade, percebíamos que eram as que eles mais precisavam…

Me lembro como se fosse hoje que, dentre os velhinhos, havia um senhor, muito simpático, talvez com uns oitenta e poucos anos, com uma expressão muito sofrida, mas que sempre me dava demonstrações de fé e religiosidade nas nossas conversas. Ele era conhecido por todos como ‘Seu Pedro’.

Seu Pedro me contava que todas as noites, antes de dormir, abria um livrinho onde havia várias orações escritas e lia uma delas. Ele até me contou, com lágrimas nos olhos, que aquele livrinho lhe havia sido dado pela sua única neta, numa das últimas vezes que o seu filho o havia visitado.

Ele também havia me confidenciado que usava o livrinho porque, com o passar dos anos, já não conseguia se lembrar das orações por inteiro e por isso se valia sempre daquele livrinho para ler uma delas e assim poder rezar, antes de dormir.

Além do mais, era uma lembrança da sua única neta e assim ele fazia questão de manter o livrinho sempre bem cuidado, ao lado de sua cama, em cima de uma pequena mesa de cabeceira.

Até que um dia, numa dessas minhas visitas, encontrei o Seu Pedro triste e cabisbaixo e lhe perguntei o que tinha acontecido. Ele então me contou que um outro idoso, recém internado na casa, e que sofria de Alzheimer, havia retirado o seu livrinho da mesinha e desaparecido com ele. Ele tinha procurado o livrinho por todo canto, mas não havia mais encontrado.

Conhecedor da sua dificuldade de se lembrar das orações, a primeira coisa que me ocorreu perguntar foi:

– E aí Seu Pedro, como fez então para rezar?

Seu Pedro então, com os olhos marejados de lágrimas, me respondeu:

РOlha filho, como eu ṇo conseguia me lembrar de nenhuma das ora̵̤es, eu resolvi falar com Deus.

E o que você falou com Ele, perguntei curioso…

– Ah meu jovem, eu disse a Deus:

‘Olha meu Deus, o Senhor que tudo vê, com certeza já sabe que o meu livrinho de orações desapareceu e que sem ele eu não sei rezar, mas quero hoje, mesmo sem o livrinho, fazer uma oração para o Senhor. O que o Senhor acha de fazermos assim: eu digo alto cada letra do alfabeto, uma por uma, e o Senhor, aí no céu, junta cada uma delas e compõe uma oração bem bonita…’

Naquele momento eu confesso que ao ouvir aquela emocionante história abracei o Seu Pedro e juntos começamos a chorar…

Não sei a oração que Deus fez com as letras pronunciadas pelo Seu Pedro, mas um anjo, depois me contou, através de um sonho, que nunca se ouviu no céu, uma oração tão linda e sincera como naquela noite, quando Deus, reuniu todos os seus anjos, para em silêncio, ouvirem cada letra pronunciada por aquele velhinho que não sabia rezar…

José Luiz Ricchetti – 12/02/2023

Thiago Melego

Radialista e jornalista. Formado em administração de empresas, gestão de recursos humanos, MBA em negociação e vendas. Atualmente cursando Análise e Desenvolvimento de Software.

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