Silvio Santos vem aí!, por José Luiz Ricchetti

Estávamos amontoados naquele corredor, meio sujo, cheio de cordas, luminárias e cortinas velhas, que normalmente antecedem a entrada de um palco de estúdio de televisão. Muitas pessoas fumavam e isso deixava o ar ainda mais carregado, bem difícil até.

Alguns permaneciam sentados em alguns bancos de madeira improvisados, outros em pé, e mais uma pequena multidão de gente se aglomerava do lado de fora, área externa da TV, uma espécie de pátio aberto, onde se misturavam aos carros de reportagem, algumas partes estruturais de cenários, carreteis de cabos, antenas parabólicas, móveis, etc.

Éramos uma enxurrada de gente, como na canção “águas de março” só que ao invés de pau, pedra, resto de toco…., éramos fantasias, adereços, bandeiras, banners, chapéus, faixas, cartazes e até mesmo pequenos cenários, que fariam parte da apresentação no programa de TV. Sim, isso mesmo, íamos todos ali, participar de um programa da televisão brasileira!

Num dos cantos, meio escuro, ao lado da caixa de fusíveis, podíamos ver o nosso garboso diretor da rádio, no seu inseparável terno cinza, bigodinho aparado, cabelo grisalhos, repartidos de lado e penteados para trás e até com um certo exagero na brilhantina, penso talvez que era “gumex”, marca de brilhantina muito utilizada naqueles tempos. Aliás, por causa dessa elegância toda, e demais características é que nós o tínhamos apelidado de “Lord”. Eu diria que ele era um lord inglês, em pessoa.

Nosso “Lord” é que faria a apresentação de todos os quadros que iriam ser exibidos no programa. Ele estava incrivelmente agitado, apesar de toda a sua experiência de homem de rádio, e ficava lendo e relendo ansiosamente os textos que tinha em mãos, preparados por um grupo de professoras e coordenadoras da apresentação.

Essas incríveis mulheres, como verdadeiras “Ghost Writers”, tinham redigido e colocado no papel a descrição detalhada de cada quadro, cada participante, cada pequeno fato, cada detalhe ou pequena história e montando todo o roteiro, para que o nosso experiente e competente radialista fizesse a narração perfeita.

Num outro canto, sentado num pufe vermelho, todo improvisado, com seu assento sujo e puído, um outro amigo, cujo sobrenome lembra ainda hoje o de um grande banqueiro, segurava preocupado várias apostilas e revistas de atualidades, enquanto pedia a sua jovem apaixonada namorada que “tomasse” dele as respostas. Toda essa sua preocupação tinha sentido porque ele iria participar do quadro de perguntas e respostas sobre conhecimentos gerais.

O prédio em que estávamos era o da TV Tupi, a primeira emissora de televisão do Brasil e da América do Sul, jovem TV que tinha pouco mais de uma década e meia de vida, já que havia sido fundada nos idos de 1950 pelo jornalista Assis Chateaubriand.

A TV Tupi, apesar de precoce no mundo da televisão, já tinha na sua grade vários programas de sucesso, e entre eles a TV de Vanguarda que revelou a primeira geração de atores, atrizes e diretores da televisão brasileira e mais alguns outros programas campeões de audiência: “Alô Doçura”, “Sítio do Pica-Pau Amarelo”, “O Céu é o Limite” e o “Clube dos Artistas”, sem falar no famoso telejornal “Repórter Esso”, ícone dos jornais da TV brasileira.

A TV Tupi, dos primeiros anos, era o grande ícone da TV brasileira e estarmos ali naqueles corredores, era para nós, além de muita emoção uma oportunidade de estar participando, pela primeira vez, de um programa de televisão.

Em programas de auditório, quem liderava a audiência era um jovem apresentador chamado Sílvio Santos, cujo programa levava o seu próprio nome: Programa Sílvio Santos.

Neste programa havia um quadro que se chamava Cidade contra Cidade, uma competição entre cidades e que consistia em duas cidades apresentarem vários quadros, contando a história, seus usos e costumes e também coisas da atualidade brasileira. Cada quadro de uma competia contra o quadro da outra e quem ganhasse ia acumulando pontos até termos uma das cidades declarada a vencedora.

Sílvio Santos, nessa época, apesar de já ter uma certa fama, era ainda um simples funcionário da TV Tupi, mas seu programa tinha enorme audiência. Creio que até hoje permanece como um dos grandes recordistas de audiência na TV brasileira.

No corredor e no pátio do fundo da emissora, todos nós os participantes, ou melhor  “futuros artistas”, estávamos procurando controlar o nosso nervosismo, ansiedade e expectativa, da entrada em cena, isso depois de uma viagem de mais de 6 horas, em ônibus fretados junto à uma empresa de ônibus, cujo nome era o da nossa própria cidade. Estávamos ali completamente exaustos e cansados, porém ansiosos para estrear na TV!

Meses antes, quando foi confirmada a candidatura da nossa cidade e se montou a uma comissão organizadora, que tinha entre elas inclusive dedicada professora de educação física, especialista em grandes eventos e desfiles. Essa competente comissão foi aos poucos idealizando e organizando os diversos quadros que fariam parte da apresentação no renomado programa.

Eu e mais alguns amigos, fomos escolhidos pela comissão, para participarmos em um dos quadros que representaria as diversas profissões: engenheiro, médico, economista, professor, militares das três armas, ou seja da Marinha, Exército e Aeronáutica, etc….

No meu caso eu deveria me apresentar como um Oficial da Marinha. Naquele momento achei muito legal, um charme até essa escolha…, mas nem imaginava a dor de cabeça que isso iria me trazer…

Para os meus amigos foi muito fácil arrumar a fantasia das profissões, principalmente as mais tradicionais. Eles vestiram uma calça escura, por cima colocaram um blusão, das faculdades envolvidas, como engenharia, direito, medicina, etc…, que eram de uso comum pelos estudantes da época, e aí tranquilamente, sem muito trabalho, já estavam todos caracterizados.

No caso de três de nós, que iríamos representar os oficiais das três armas, já foi um pouco mais difícil, mas mesmo assim aquele que ia representar o Oficial do Exército rapidamente se ajeitou com o uniforme de um amigo recém saído do CPOR – Curso de Oficial da Reserva e o outro que era da Aeronáutica, se virou logo, emprestando o uniforme de um Piloto da FAB, cuja família morava na nossa cidade. Assim todos os dois conseguiram resolver seus problemas rapidamente.

Mas e eu? Aonde eu iria arrumar o uniforme de Oficial da Marinha?

Eu pensava… estou numa enrascada, moro numa cidade do interior de SP, o mar mais próximo fica a uns 400 km da cidade e a bacia fluvial mais perto é constituída por um único rio, um pequeno córrego que cortava a cidade!

Acionei vários contatos, perguntei a inúmeras pessoas, mas o tempo foi passando e nada de achar uma alma caridosa que pudesse me ajudar com a farda de Oficial da Marinha.

No desespero pensei até em aceitar uma sugestão, dada nem sei por quem, de vestir uma sunga, amarrar dois extintores de incêndio nas costas, uma máscara de mergulho e passar por mergulhador da Marinha, mas aquilo além de ridículo, não seria justo com os dois outros “amigos de armas” que estariam vestidos com a farda completa. Hoje quando penso que quase aceitei essa ideia idiota, ainda fico vermelho de vergonha e me vejo rindo sozinho.

Lá se foram passando as semanas e quando vi faltavam só 15 dias para o programa e eu não tinha ainda uma solução para a minha farda!

Nossa cidade sempre foi de clima quente e naquele final de semana, em especial, a temperatura beirava os 34º centígrados. Havia jogo no Estádio Municipal, da segunda divisão, e meu time do coração, a querida Rubro Negra ia jogar com o time da cidade vizinha, famosa por suas eclusas, onde por sinal jogava um querido primo meu.

O time dessa cidade era nosso rival de carteirinha e eu não podia deixar de estar lá torcendo para a minha Rubro Negra. Assim esqueci um pouco o problema da bendita farda, coloquei o manto rubro negro, peguei minha bandeira e junto com vários outros amigos, rumei para o estádio.

Como éramos torcedores fanáticos, assim que chegamos, fomos até a entrada do vestiário para ver o nosso time fazer o aquecimento, na pequena quadra, atrás do campo.

Assim que chegamos, vimos o Cardoso, dando uma entrevista. O Cardoso era o nosso centro avante, grandão, negro alto e forte, vindo da várzea das fazendas da região, artilheiro e exímio cabeceador. Ele era aquele cara, que se pode dizer, caracterizava o verdadeiro caipirão, embora todos nós ali, fôssemos também caipiras natos do interior. Diziam que o Cardoso gostava de tomar umas cachaças, mesmo nos dias dos jogos, e que inclusive não conseguia entrar em campo, sem antes dar uma boa “talagada”.

Mas cachaças à parte, curiosos, chegamos perto para ouvir a entrevista e vimos quando o repórter da rádio clube perguntou a ele: – E aí Cardoso, você que é um grande goleador, acha que vai balançar as redes hoje? Ele então na maior simplicidade, encheu o peito e respondeu: “-Diga aí pros orvintes que se haverei aportunidade não percarei, ponharei quente!”

Saímos rindo da resposta do nosso querido e simplório goleador e fomos nos sentar na geral para acompanhar o jogo. A Rubro Negra, jogou demais naquele dia e meteu um chocolate na cidade vizinha de 3×0 com 2 gols do Cardoso, um deles, inclusive com um drible no meio das pernas desse meu primo irmão. Decididamente nosso goleador tinha “ponhado quente”!

Nosso grupo saiu do “Campo”, como nós chamávamos o Estádio Municipal e voltando para casa, paramos no bar Colonial, que se diga, de colonial não tinha nada, bem defronte ao jardim da cidade, para tomarmos aquela “gelada” e comemorarmos a vitória.

No coreto do jardim, a nossa “furiosa”, nome carinhoso que dávamos a nossa banda de música, fazia seu concerto musical, como de hábito, todos os domingos à noite, a partir das 19 horas.

Era tradição que as famílias levassem suas crianças para “pular a banda”, ou seja, dançar em volta do coreto e naquele domingo não era diferente, o coreto estava repleto de famílias e suas crianças. Essa tradição era muito legal porque fazia parte de cada um de nós e era passada de pai para filho, de geração em geração.

Estava então eu ali, com os amigos, sentado no banco do jardim em frente ao bar, levando meu copo de cerveja à boca, quando a furiosa começou a tocar um tradicional dobrado, que ativou essa tradição tão arraigada na memória, tanto que me virei, incontinente, na direção da banda, para ouvir o dobrado com mais atenção.

Foi quando reparei no uniforme da nossa banda. Eles usavam na época um uniforme branco, botões dourados e um quepe também branco, com o logotipo da lira representativo da música, muito similar com as fotos de uniforme da Marinha, que eu tinha visto.

Naquele momento, num estalo, vi a solução dos meus problemas: O uniforme da banda!  Imediatamente sai correndo, gritando Eureka! Eureka! Eureka!

Eu parecia o próprio Arquimedes de Siracusa, gritando, quando conseguia criar um dos seus inventos. Finalmente eu tinha encontrado a minha “alavanca” de Arquimedes ou melhor parafraseando eu tinha alavancado a solução para a minha fantasia.

Meus amigos obviamente, até que eu explicasse depois o que tinha se passado, não entenderam absolutamente nada e concluíram naquele momento que teriam que me incluir no rol dos loucos da cidade, que por sinal, eram muitos e me internar.

Consegui descolar o bendito uniforme da banda, arrumei emprestado um par de sapatos brancos, acredite, com a mãe de um amigo e depois de substituir o logo da lira por um dos escoteiros, que eu tinha em casa, pronto, lá estava eu “vestido” de Oficial da Marinha! Este era um segredo que poucos sabiam, bem, pelo menos até hoje….

Antes do dia marcado para o programa na TV Tupi, fizemos inúmeros ensaios prévios na nossa escola e depois no ginásio de esportes, para que no dia, tudo saísse nos trinques na nossa aparição televisiva.

No geral, o objetivo era fazermos uma apresentação extremamente rica e diversificada, iniciando com a participação de várias personalidades da nossa terra desde a nossa famosa dupla caipira, atletas de várias modalidades como atletismo, box e futebol, artistas de rádio e tv, personalidades da política como um deputado, padres, e até a esperada participação do próprio Governador do Estado, da época, que também era nosso conterrâneo.

Tínhamos que mostrar a diversidade da nossa cultura, das profissões e das várias riquezas da cidade e junto com os quadros participativos e disputas, fazermos mais pontos e ganhar a ambulância para a cidade, que era o prêmio do vencedor do programa, e no fundo o grande objetivo de todos nós.

Assim nos diversos quadros previstos haviam pessoas caracterizadas desde os antigos fundadores do município, passando pela rainha da cidade, suas princesas, o rei momo e a rainha do carnaval, até as lindas garotas que se apresentavam com os vários tipos de roupas, mostrando a evolução da vestimenta da mulher na sociedade, os estados e as estações do ano.

Em um outro quadro várias meninas pintoras representavam as artes, outras como catadoras de café, mostravam a importância econômica do café na nossa economia, e como nosso principal produto agrícola.

A ideia de visão de futuro também se fazia representar através de meninas vestidas com roupas espaciais, além da imagem de pureza das nossas crianças através das lúdicas historinhas, fábulas e contos infantis.

E não podemos esquecer que lá nesse meio, estávamos também nós, eu e meus amigos representando as profissões liberais e as forças armadas.

Haviam muitos outros quadros e alguns mais participativos do tipo competição, como o quadro do futebol, onde craques das duas cidades cobravam pênaltis alternadamente e o quadro “responda ou passe”, onde participantes das duas cidades disputavam entre si, para ver quem acertava mais as perguntas apresentadas.

Eu adorava participar de todos os ensaios e dessa preparação toda, principalmente porque podia assistir várias vezes as nossas lindas meninas desfilarem. O que mais gostava de ver era quando elas surgiam, representando a mulher brasileira, vestidas com os mais variados tipos de roupa: longos vestidos, terninhos, bermudas, calças “boca de sino”, maiôs e mini saias, Ah principalmente as minissaias….

Ver todas aquelas beldades desfilando, bem de perto, era para este jovem adolescente como se elas estivessem desfilando só para mim, coisas que só podem ocorrer mesmo na cabeça de um jovem de 15 anos e muito cara de pau….

O fato pitoresco do ensaio final, com todos nós vestidos com suas fantasias finais, era justamente o fato de eu estar lá no meio disso tudo, no meu uniforme da banda da cidade, como se fosse um oficial da Marinha do Brasil e ninguém ter se dado conta disso! Nesse momento ficou claro para mim que eu estava bem preparado para ingressar no mundo da televisão, entrar como se dizia para o mundo artístico, cheio das suas falsas verdades e ilusões.

Chegou o dia e tínhamos que estar lá em São Paulo, na TV Tupi, para o programa ao vivo do Cidade x Cidade, comandado pelo famosos Sílvio Santos.

Saímos de madrugada e começamos a nossa aventura, a saga de jovens artistas e eu tinha certeza absoluta da vitória, não só porque havíamos ensaiado muito e os nossos quadros eram realmente muito bonitos, mas porque eu havia sonhado na noite anterior de que tínhamos vencido a outra cidade e com uma vitória esmagadora!

Nessa nossa estafante viagem até a capital não faltaram problemas, desde as meninas que passaram mal na viagem, até ônibus quebrados, motores superaquecidos e pneus furados, o que contribuiu para as várias paradas obrigatórias, além daquelas necessárias para arredondarmos de novo o traseiro, tomar um cafezinho ou usar o WC, que era como se identificavam os banheiros da época.

Numa dessas paradas de quebra de um ônibus, diz a lenda que um amigo nosso foi obrigado a se aliviar no matinho e que sem papel higiênico teria se utilizado de algumas folhas do mato, que mais tarde se confirmou serem folhas de urtiga! A lenda também confirma que este amigo passou o resto da viagem com uma coceira insuportável no traseiro, fazendo com que ele rebolasse mais que passista de escola de samba, mas isso fica para uma outra história.

Assim é que, depois de todos os ensaios, trabalhos, fantasias e da cansativa viagem, estávamos todos lá, com nossas fantasias, naquele corredor estreito e mal iluminado, cansados, ansiosos, esperando o momento para o programa começar e fazermos a tão esperada performance, o nosso “gran finale”.

De repente ouvimos um alvoroço, várias pessoas do staff da TV se agitando, correndo pra lá e pra cá e a gente sem saber o que estava acontecendo….

De repente alguém gritou: – Sílvio Santos vem aí!

Ele passou rapidamente entre nós, muito simpático, cumprimentou a todos sorrindo, entrou no palco, a cortina logo se abriu, o auditório veio abaixo em palmas e ovação e começou o tão esperado programa….

Entramos todos e fizemos, primorosa participação, quadro a quadro. A torcida da cidade foi, além de grande, muito qualificada e nós todos, fomos agarrados pelo sucesso e fizemos acontecer! O meu sonho da noite anterior tinha se concretizado: Ganhamos!

Era o dia 28 de agosto de 1969 e nós, jovens cidadãos de uma pequena cidade do interior, sem que talvez na época tivéssemos a mínima noção disso, havíamos não só participado, pela primeira vez, de um programa de televisão, mas nos tornados, simplesmente, parte da história da TV brasileira!

SOBRE O AUTOR:
José Luiz Ricchetti, nascido em São Manuel, é oriundo de famílias das mais tradicionais da cidade como Ricchetti, Ricci e Silva, é casado e tem 3 filhos. Engenheiro Mecânico pela Escola de Engenharia Industrial – EEI, com pós-graduação na FGV em Administração de Empresas e Comércio Exterior, tem MBA na área de Gestão de TI e Telecom pelo INATEL-UCAM, tendo atuado por mais de 35 anos, como executivo de grandes empresas brasileiras e multinacionais no Brasil e no Exterior.

Políticas de privacidade

Este site usa cookies para que possamos oferecer a melhor experiência de usuário possível. As informações de cookies são armazenadas em seu navegador e executam funções como reconhecê-lo quando você retorna ao nosso site e ajudar nossa equipe a entender quais seções do site você considera mais interessantes e úteis.

posjp33

posjp33

posjp33