Muito além do jardim, por José Luiz Ricchetti

‘Muito além do jardim’ é um antigo filme de sucesso do grande ator Peter Sellers, realizado nos USA em 1979 e dirigido por Hal Ashby.

Trata-se de uma comédia dramática que conta a história de um dedicado jardineiro, com alto déficit de inteligência, que após a morte de seu milionário patrão é expulso pelos advogados da casa onde sempre viveu, sem nunca ter saído a rua.

Assim, tudo o que ele conhece da vida e da sociedade está baseada apenas na sua interação diária com a televisão, de onde ele absorve e repete todos os clichês que vê e escuta, bem como das coisas e cuidados que aprendeu ao longo dos anos cuidando do jardim da mansão.

Em todo momento, o jardineiro fala obviedades e platitudes, mas as pessoas que o cercam, influentes empresários, políticos americanos, incluindo o próprio Presidente da República e mais os principais órgãos de imprensa passam a ver nas suas falas e metáforas televisivas significados ocultos e cheios de sabedoria.

Aquele simples jardineiro, assíduo espectador de TV com sua mente abaixo do normal passa então a influenciar as decisões do governo com suas frases de efeito decoradas da TV e seus jargões de jardinagem.

O filme é uma enorme e mordaz crítica aos políticos e aqueles que gravitam a sua volta e por incrível que possa parecer essa obra prima do cinema continua extremamente atual, mais de quarenta anos depois.

(…)

O filme me fez lembrar, imediatamente, da breve visita que tinha feito, uma semana antes, à minha cidade natal, onde pude rever o nosso antigo jardim.

Aquela lembrança me ocorreu naquele momento por duas razões, uma trazida pelo próprio nome do filme, o que me induziu a rememorar os velhos tempos quando frequentava o jardim da minha cidade e a outra porque o filme criticava os políticos e administradores que no caso também foram os grandes responsáveis, seja por falha ou omissão, para chegarmos a essa situação deplorável e total abandono em que o encontrei durante a minha visita.

Naquele dia, passeando pelas suas velhas alamedas, tentava passar para a minha esposa e filha, ambas paulistanas da gema, como era e a grande importância cultural para a cidade, daquele jardim, outrora maravilhoso.

Expliquei a elas que os poucos bancos de granilite que ainda restavam tinham sido todos doados à época por várias das principais lojas, armazéns e comércios em geral e os nomes gravados no seu encosto eram de cada um desses estabelecimentos que faziam questão de ajudar a preservar as coisas boas da cidade.

Falei também que aquelas doações de bancos, tinha se transformado, no decorrer do tempo, na própria história do comércio e indústria local, em áureas épocas, quando a rica cultura do café era proeminente na região. Não soube explicar a minha filha de seis anos o porquê desses bancos estarem agora na sua grande maioria semidestruídos ou desaparecidos. Também não consegui lhe explicar o porquê que há dois anos antes eu tinha tirado uma foto dela sentada no banco com o nome da Casa Ricchetti e não pude repetir a foto porque o banco já não estava mais lá….

Restou me sentar num daqueles bancos próximos ao coreto para lhes descrever um pouco dessa história do nosso jardim, relembrando a minha própria vida e tudo de bom que tinha vivido ali naquele quadrilátero outrora cheio de árvores, gramados, bancos, alamedas, vasos coloridos e iluminados, seu particular chafariz e o maravilhoso caramanchão…

(…)

Foi aqui em volta deste coreto que tive primeiro contato com todos aqueles que seriam meus futuros amigos e colegas de escola, porque era tradicional, assim que um casal tinha um filho, levá-lo ainda de colo, para circundar o coreto, durante a retreta, para escutar as músicas da banda que, religiosamente, eram tocadas todos os domingos ao cair da tarde.

Anos depois, quando já tinha aprendido a andar, foi aqui também que aos domingos eu ‘pulava a banda’ como se dizia, correndo em volta do coreto enquanto meus pais, sentados nos bancos do entorno, colocavam a conversa em dia, com todas as demais famílias de amigos e parentes que nunca faltavam ao sagrado compromisso dominical.

Aos nove ou dez anos era, nas suas alamedas e no meio dos seus jardins e vasos iluminados com luzes coloridas, que eu brincava com os amigos de pega-pega ou de esconde-esconde.

Na adolescência suas escadas e esquinas eram o local de encontrar os amigos logo depois de assistir a um filme e deixar nossas garotas em suas casas.

Para o pessoal mais velho o jardim tinha o local do ‘vai e vem’ que era um sistema de paquera que ocorria na alameda que começava em frente à Igreja de São Benedito e terminava do outro lado, em frente a loja do Demétrius, passando em frente ao chafariz com carranca de leão.

Os rapazes ficavam ali, em pé, nas laterais da alameda, muitas vezes ‘botando banca’ de cigarro na mão, para poder ver e flertar com as moças que iam e vinham pelo corredor, numa espécie de procissão de duas mãos, daí o nome ‘vai e vem’. Os primeiros olhares, as primeiras piscadas de olho, os primeiros contatos e conversas, além de muitos noivados e casamentos surgiram ali no ‘vai e vem’. 

Os que eram noivos ou quase noivos já podiam namorar nos bancos espalhados por todo o jardim ou então em pé, encostados nas colunas do lindo caramanchão, sempre florido e perfumado pelas flores ‘dama da noite’.

O jardim sempre foi o coração da cidade, onde tudo acontecia e pulsava através de suas veias e artérias, não só porque ficava no centro geográfico, da cidade, mas também porque tudo que mais importava estava no seu entorno.

Era, nas ruas que o circundavam ou nas ruas adjacentes, em cada um dos seus quatro lados, que toda a cidade emergia com o seu comércio pungente e com sua população ativa, alegria e contagiante. Era ali, em volta do jardim, que tudo acontecia e fazia por acontecer.

As missas eram celebradas na Igreja Matriz que ficava logo na subida do jardim, a não mais de cem metros, como também os fabulosos bailes aconteciam no Clube Recreativo, situado bem na esquina e em frente à Igreja.

No entorno do jardim ficavam também todos os bancos financeiros, entre eles os antigos Banco do Brasil, Comércio e Indústria, Comercial, Brasul, Banespa, Moreira Salles e Banco da Lavoura, lembrando que nessa época não havia ainda as Caixas Econômicas e os pagamentos de impostos se davam através de duas coletorias, a estadual e a federal, que também se localizavam encostadas ao jardim.

Todas as principais lojas e armazéns eram localizadas no seu quadrilátero ou a não mais que dois quarteirões do centro geográfico do jardim com seu majestoso coreto.

O elegante Cine São Manuel, onde os homens só entravam de terno e gravata, ficava em uma de suas esquinas, como também os tradicionais bares Colonial e Ponto Chic, a Casa Ricchetti e o Paço Municipal completavam os seus quatro cantos, as suas quatro esquinas.

Depois ainda tínhamos ao redor os templos da gula e do consumo como a sorveteria do Chiquinho com seus inesquecíveis sorvetes de coco queimado, esquimo, limão e creme holandês, a banca do Cid com suas revistas, perfumes importados e bijuterias, a Churrascaria Ki brasa com suas brincadeiras dançantes, o bar do Kawakami, primeira e única choperia da cidade, com seu famoso ‘bauru de forno’ servido nas mesas de granilite do reservado, o bar Colonial com as deliciosas pizzas do João e para terminar a noite era só frequentar o bilhar do bar Brasília, com direito a comer um inesquecível ‘churrasquinho de pernil’, com queijo prato, molho de tomate, cebola e pimentão!

(…)

Voltando as cenas do filme de Peter Sellers cujo personagem tem o nome de ‘Chance’ num dado momento ele diz ao Presidente dos USA uma das suas frases de efeito baseada nos seus conhecimentos de jardinagem: “Outono e inverno. Depois, primavera e verão”

Obviamente, ele está falando a respeito do seu jardim, mas o Presidente entende que está recebendo um conselho de Chance baseado numa metáfora de esperança para o seu povo.

Acho que o nosso jardim também está precisando de uma chance, para voltar a ser muito além de um jardim!

Outono e inverno. Depois primavera e verão….

José Luiz Ricchetti – 14/10/2021

thiagomelego

thiagomelego

Jornalista por tempo de serviço, Radialista, Administrador, tecnólogo em Recursos Humanos. Estuda Análise e Desenvolvimento de Sistemas.