Crônica: Halloween, por José Luiz Ricchetti

Agora no começo de outubro, completei 69 anos e, como não podia deixar de ser, a vida me presenteou com mais uma lição.

Acho que foi um presente para a gente ter a certeza de que a vida é mesmo feita de pequenos momentos e que eles sempre escorrem pelas nossas mãos.

Creio que foi para, mais uma vez, ter a certeza de que não temos o menor poder de segurá-los, mudá-los ou detê-los. Os momentos aparecem, surgem, entram sem bater e simplesmente acontecem…

Naquela primeira semana de outubro, me pareceu que o dia ‘das bruxas’, havia sido antecipado, sem ao menos me pedir licença.

Little Caucasian smiling girl with trick or treat sign and big orange Halloween pumpkin sitting near fireplace

Primeiro foi a secretária doméstica, que teve sérios problemas com seu filho, numa inesperada crise de apendicite o que fez com que se ausentasse de casa.

Depois, um dia antes do meu aniversário, minha esposa passou mal e foi internada com sintomas de uma infecção misteriosa no fígado.

Esqueci do bolo de aniversário com o qual pretendia festejar meu dia com a família e os amigos e passei, não só a noite do aniversário, mas toda o resto da semana, entre idas e vindas ao hospital, dividindo o tempo entre a esposa e a minha filha de seis anos.

A vida é assim mesmo. Quando menos se espera vem uma surpresa que não escolhe nem dia, nem hora, nem lugar.

É por isso que a gente aprende, que existe sempre uma sutil diferença entre segurar nas mãos e ser amparado por elas.

A gente percebe que nem sempre a nossa alma demonstra a mesma vivência e segurança que traz o nosso espírito, esse viajante de várias vidas.

Nessas horas as nossas certezas, as nossas seguranças caem por terra e se esvaem em questão de segundos. A fé é posta à prova!

A gente, inevitavelmente, começa a pensar mil coisas….

Nesses momentos você percebe que o amor não é feito só de deliciosos arrepios, mas vem também embalado com tremores que trazem da alma aqueles nossos medos que estavam por lá dormentes.

Você revê cenas de quando tudo começou, como se estivesse assistindo a um filme antigo que pode ser popular ou ‘cult’.

Você briga com a fé e logo imagina o ‘day after’.

Você pensa se vai conseguir encarar a vida, se vai conseguir criar a filha, se vai aguentar viver aquela tempestade, depois de um precoce pôr do sol.

Então surgem mais e mais pensamentos….

Você começa a perceber que todos os seus beijos e abraços não vêm impressos em nenhum contrato e nem sequer têm fiador.

Você entende que de todos aqueles presentes da vida, só ficam guardados aqueles que tocaram o seu coração.

Você se surpreende com aqueles que já aprenderam o verdadeiro sentido da amizade, e acredite, nem todos os seus velhos amigos estão lá…

Você se lembra dos erros e acertos e de todas as pessoas a quem ainda não pediu perdão.

Você se recorda do sorriso de criança e da sua primeira namorada.

Você valoriza as vitórias e o que aprendeu com as derrotas.

Você recolhe da mente aqueles seus lindos voos de borboleta, sobre imensos jardins repletos de flores, mas também se lembra dos dias frios de mariposa, na busca da luz para se esquentar.

Você revê o nascer do sol especial na praia dos seus sonhos, mas também do dia gelado ao final da escalada da montanha mais alta que já subiu.

Você aprende que tudo tem hora, tem tempo e tem lugar, mas que você não recebe nunca informação privilegiada sobre nenhum deles.

Você percebe que o que vale mesmo é o hoje, porque o ontem já se foi e o amanhã nem sequer ainda existe.

A nossa vida é um Halloween.

Guloseimas ou travessuras?

Cabe a você escolher.

José Luiz Ricchetti -28/10/2021

thiagomelego

thiagomelego

Jornalista por tempo de serviço, Radialista, Administrador, tecnólogo em Recursos Humanos. Estuda Análise e Desenvolvimento de Sistemas.