Crônica: O fantasma e as pragas da cidade

Dizem que um dia lançaram uma praga sobre a cidade para que ela não se desenvolvesse mais e ficasse cada vez menor.

Esta história me foi contada pelo próprio fantasma que habitava a torre do Paço Municipal.

Ele existia há mais de trezentos anos e muito antes de morar naquela torre da cidade já havia habitado um velho castelo na Europa.

Era um dos remanescentes do grupo de leprosos que um dia, passando pela cidade pediram guarida para serem tratados no leprosário local e acabaram sendo expulsos.

A praga contra aquela cidade foi lançada por ele e todos os outros leprosos que o acompanhavam. Praga esta que teria sido reforçada algum tempo depois por um grupo de irmãs religiosas, que cuidavam do Leprosário e que assim que este foi transformado em um asilo de velhos, também foram expulsas da cidade.

Não se sabe quem comandou as expulsões, mas eles desconfiavam do prefeito municipal à época e daí a praga ter se concentrado não só contra a cidade, mas também em relação a todos os seus futuros administradores.

Alto, forte com uma enorme corcunda que começava bem abaixo do pescoço e percorria até o meio das costas este fantasma tinha o rosto e mãos deformados pela lepra e os dentes amarelados, tendo ainda os caninos proeminentes, o que lhe dava uma aparência ainda mais terrível e sombria.

Não podia dizer que sua figura fosse das mais agradáveis. Completava a sua carranca um cabelo crespo, comprido e desgrenhado que caia pela testa e cobria as orelhas e parte das suas cicatrizes espalhadas pelo rosto. Ele era uma figura muito feia, e terrivelmente assustadora.

– ‘Sorte que eles não conseguem me ver, senão sairiam correndo no primeiro minuto’ me disse ele sobre os munícipes enquanto gargalhava.

Era ali pelas salas do Paço e pela biblioteca que ele costumava dar os seus passeios diários para assustar as pessoas, principalmente aqueles que ali trabalhavam, entre eles o próprio prefeito e seus vereadores.

Era um tal de derrubar um livro aqui, outro ali, abrir a porta de um dos armários, fazer cair uma caneta, voar um papel, esconder uma bolsa, carteira ou chapéu….

Vivia vagando naquela torre do Paço Municipal há mais de cem anos, pois havia se instalado ali em 1910, dois anos após a sua inauguração.

Uma das suas poucas distrações era ficar sentado no alto da torre, e olhar pelas frestas de suas janelas para acompanhar diariamente cada um dos cidadãos que passeavam pelas ruas do centro ou então pelo jardim, que se situava bem defronte aquele prédio.

As vezes ele costumava enviar uma energia ruim para fazer com que um deles tropeçasse e caísse ou então que dois carros batessem um contra o outro.

Não é à toa que existem inúmeros relatos de habitantes da cidade que, ao passarem perto daquela torre, relataram ouvir uma estranha gargalhada ecoar pela noite….

Seu único dia de sossego acontecia aos domingos, quando, sentado ao lado do relógio de quatro lados ficava ouvindo e se embevecendo com as lindas músicas executadas pela filarmônica, enquanto as crianças corriam e pulavam em volta do coreto, sob o olhar atentos de seus pais.

No mais costumava percorrer diariamente as diversas salas daquele prédio, onde ficavam as autoridades máximas da municipalidade e cometer as suas inúmeras travessuras para aterrorizar, colocar medo em alguém e fazer valer as pragas contra a cidade, para que seguissem seu curso.

Pode se dizer que ele estava ali só para garantir que todas as pragas se mantivessem pelo menos por mais de cem anos…

Além desse deleite em ouvir a filarmônica aos domingos ele gostava também de entrar na sala do prefeito, para, toda vez, derrubar o tinteiro sobre as folhas de papel, exatamente, quando o chefe do executivo estava assinando algum decreto importante.

Ele adorava fazer isso como uma espécie de vingança, não só para manter a continuidade das pragas jogadas por ele, seus amigos leprosos e as madres do leprosário, como também porque detestava todos aqueles mandatários, metidos a besta, que segundo sua visão, não tinham a menor qualidade para gerir aquela mal-assombrada cidade, grande produtora de café.

Até que um dia assumiu um novo prefeito, fervoroso adepto de uma dessas religiões afros que trabalham todos os lados do mundo espiritual. Como grande conhecedor de ‘maus feitos e macumbas’ assim que tomou posse ele percebeu onde tinha amarrado o seu burro. Assim imediatamente convocou alguns amigos médiuns para fazer uma limpeza geral e enxotar o velho fantasma dali.

Vários dias e noites se passaram até que os rituais terminaram e eles conseguiram finalmente acorrentá-lo e levá-lo para um tratamento nas hostes espirituais.

(…)

Terminado esse grande e pesado trabalho o prefeito e seus secretários, acompanhados dos médiuns envolvidos na empreitada corajosamente subiram naquela torre mal-assombrada.

Ali, entre velas pretas, sapos, aranhas e morcegos encontraram, bem ao lado do sino do relógio, um pequeno livro vermelho em cuja capa estava escrito: ‘PRAGAS’

Ao folheá-lo viram que, muitas das pragas que recaíram, durantes anos, em cima da cidade, não eram simplesmente jogadas ao léu, elas eram todas detalhadamente organizadas e catalogadas.

Na introdução daquele livreto estava registrado em letras góticas o grande objetivo: ‘Fazer com que a cidade fosse perdendo totalmente a sua identidade.’ 

Naquele livrinho vermelho, com mais de 200 páginas, encontraram não só as várias descrições de magias e feitiços, mas também uma pequena lista de lugares da cidade, sempre com uma observação, anotada bem na frente de cada uma delas:

  •  Acabar com a principal riqueza, a cultura do café. OK
  •  Lojas tradicionais da cidade – Fechar e a última pelo fogo. OK
  •  Bares e restaurantes antigos da cidade – Falir todos. OK
  •  Hotel – Transformar em hospedaria de fantasmas. OK
  •  Estação de trem – Manter os prédios abandonados. OK
  •  Futebol – Acabar com os times da cidade. OK
  •  Seminário de padres e a Escola de Comércio – Fechar. OK
  •  Cinemas – Fechar todos. OK
  •  Empresa de ônibus – Encerrar linhas. OK
  •  Indústria de tecelagem – Fechar. OK
  •  Jardim público – Transformar em local de mendigos. OK
  •  Principais clubes da cidade, fechar um a um. 50% feito

As Pragas são como Fantasmas, só nos abandonam quando deixamos de acreditar nelas.

José Luiz Ricchetti – 18/10/2021

thiagomelego

thiagomelego

Jornalista por tempo de serviço, Radialista, Administrador, tecnólogo em Recursos Humanos. Estuda Análise e Desenvolvimento de Sistemas.