A grande surpresa, por José Luiz Ricchetti

Eu estava me preparando para ir à noite de autógrafos do meu livro ‘Paço a Passo’, organizada pelo meu amigo Arnaldo Catalan, Secretário de Cultura e programada para acontecer na Biblioteca Municipal no dia 1º de outubro.

Eu já estava na casa do meu irmão Carlos, que voltou a residir na nossa querida cidade de São Manuel, quando ouvi uma buzina que me soou familiar.

Abri a janela e lá estava ele! O meu querido Fordão 1946, imponente como sempre, acelerando seu potente motor e fazendo acelerar também o meu coração.

Será que ele veio me buscar para uma nova viagem no tempo?
Justo hoje na noite de autógrafos?

Assim que me viu na janela ele piscou seus faróis e percebi que suas três luzes do painel haviam começado a piscar.

Sai e me belisquei para ver se era verdade, olhei a rua e não havia mais ninguém. Será que estou sonhando?

Corri e logo abri a porta e entrei. Imediatamente a luz vermelha se transformou em amarela, logo veio a verde e o motor roncou forte.

O Fordão arrancou em alta velocidade pela rua Sete de Setembro e subiu já fazendo uma curva fechada, contornando o Santuário de Santa Terezinha e penetrou as nuvens do alto da estação.

Percebi que naquele momento estávamos no túnel do tempo e o velho Ford e ressurgiu comigo de dentro das nuvens para o não de 1970, ano do centenário da cidade.

Então continuou voando pelos céus da cidade, como que fazendo um tour em torno dos seus principais pontos, como que se quisesse que eu me relembrasse de todos eles, aqueles mesmos que começaram a ser idealizados e depois construídos a partir de 1870, ano da fundação da cidade.

Passamos pela Igreja Matriz, a sede do velho Clube Recreativo, o lindo Jardim e seu coreto, o antigo Paço Municipal com sua maravilhosa torre e seu relógio de quatro cantos, inspirados no prédio da Prefeitura de Melborn na Austrália, o prédio do cine São Manuel, o Hotel Municipal, a Estação da Estrada de Ferro Sorocabana, o Tenis Clube, o Hospital Casa Pia, o Instituto de Educação, o Grupo Escolar Dr. Augusto Reis, a Escola Agrícola, o Tiro de Guerra, a Cadeia, o Fórum e por último o cemitério, a última morada dos são-manuelenses.

Depois começou a circular pelas sua principais ruas e avenidas, como a Morais Gordo, Quatro de Junho, XV de Novembro, Batista Martins, Gomes Faria, Joaquim Floriano, Sete de Setembro, Irmãs Cintra, Epitácio Pessoa, rua dos Andradas.

Do alto eu podia ver aquela enorme quantidade de armazéns, lojas de tecidos e de sapatos, bares, sapatarias, alfaiates, sorveteria, banca de jornal e tantas outras casas comerciais tradicionais.

Nas ruas e na frente de todas essas casas comerciais era enorme o público, que fazia suas compras, encontrava um amigo para conversar, ou então o convidava para entrar e tomar um cafezinho num dos bares da cidade, jogando uma boa conversa fora.

Depois daquele pequeno tour pela minha cidade dos anos 70 o Fordão entrou pela rua Morais Gordo e estacionou um pouco antes do prédio da piscina, na confluência da rua Joaquim Floriano.

Então ele buzinou, e vi sair daquela porta do velho e conhecido armazém dos ‘Del Bianco’, ninguém menos que o meu querido amigo Zezão.

Ele veio correndo, eu saí do carro, nos abraçamos, disfarçamos as lágrimas, pois fomos criados com o lema do “homem não chora’ e matamos as saudades de nossas lindas histórias da adolescência.

Falamos dos nossos passeios de bicicleta pela estrada da Agrícola, de caçar passarinho, de passar a peneira procurando peixe no rio Paraiso, de jogar bolinha de gude, de pega-pega, dos carrinhos de rolimã, das peladas de futebol, dos jogos de basquete e vôlei pela seleção do colégio, dos jogos abertos em São Manuel, das procissões de Corpus Christi, das festas da Aparecida, dos bailes, dos namoros no escurinho do cinema, das primeiras namoradas, das brincadeiras na casa de alguma garota, com a velha vitrola e os discos de vinil, das farras na Água Nova e dos nossos fantásticos carnavais, com direito a corso e chegada dos foliões de trem na Estação, vindo da Igualdade…
Foram tantas as lembranças boas que não cabiam mais nos nossos corações que transbordavam de alegria através da arte e beleza do reencontro.

Rever aquele velho amigo em 1970, através do velho Fordão 1946, carro que havia sido do seu pai e que foi palco das nossas inúmeras aventuras, já era demais para mim e fiquei imaginando o que não estava sendo para ele Zezão, um velho e querido amigo que muito novo se foi.

O tempo passou e o Fordão, como sempre, buzinou alertando que o tempo estava esgotando. Em seguida ele piscou os faróis e eu já sabia que estava na hora de partir.

Nessa hora esqueci completamente dessa história boba de que ‘homem não chora’ e deixei juto com meu último abraço no amigo um banho de lágrimas.

O Fordão ganhou os céus da inesquecível São Manuel dos anos 70 e mergulhou de volta para 2021.

Estacionou em frente a Biblioteca Municipal. Estávamos de volta para a noite do dia 1º de outubro de 2021 e a noite de autógrafos.

Lá estavam muitos dos meus velhos amigos e conhecidos, além de outros que a memória já não se lembrava e muitos que me conheceram pelos meus textos, mas que não tiveram a mesma alegria de usufruir da nossa São Manuel dos idos tempos de outrora.

Agradeci ao meu velho amigo de viagens incríveis pelo tempo, o meu velho Fordão, dando lhe um beijo no seu capô, antes de entrar na Biblioteca.

Ao passar pela porta, me lembrei mais uma vez do lindo poema de Mário Quintana e usando a licença poética ousei misturá-lo com meus pensamentos:

Quando se vê, já são 19 horas!
Quando se vê, já é sexta-feira!
Quando se vê já se passaram mais de 60 anos!
Ah se me fosse dado uma outra oportunidade no tempo, eu nem olharia para o relógio do Paço, mas seguiria em frente, e iria jogando pelo caminho cada pedacinho inútil das horas…’

José Luiz Ricchetti – 29/09/2021

thiagomelego

thiagomelego

Jornalista por tempo de serviço, Radialista, Administrador, tecnólogo em Recursos Humanos. Estuda Análise e Desenvolvimento de Sistemas.