Crônica: Ponto Chic

Eram dez horas da manhã e lá estava ele acompanhando seus garçons para servir mais um cafezinho para aqueles esnobes cavalheiros.

Sua confeitaria, ‘O Ponto Chic’, ficava mais especificamente bem no centro, com todas as portas voltadas para o único jardim da cidade, bem ao lado do Paço Municipal.

Era ali que todas as manhãs, vários dos grandes fazendeiros e comerciantes de café costumavam se reunir para negociar e especular sobre altas e baixas do mercado das rubiáceas.

A cidade era famosa pelos grandes produtores e exportadores de café, desde que o bandeirante Bartolomeu Bueno da Silva, grande desbravador, espalhou seus descendentes pela região, que de posseiros de terras, se transformaram através de lei, em grandes latifundiários e produtores agrícolas, principalmente de café.

Sua confeitaria era muito bem montada, com lindos balcões, prateleiras e expositores de vidro, muitos espelhos e móveis trabalhados em madeiras de lei, principalmente cedro e jacarandá.

Além do salão com suas pequenas mesas com tampos de mármore branco havia também, na parte superior, várias saletas reservadas para quem preferia um ambiente mais privativo.

Todos os dias, a partir do momento em que abria seu comércio e degustava a primeira xícara de café saído da máquina, seus pensamentos voltavam a atormentá-lo, sempre se questionando, espírita que era, o que tinha feito em outra vida, para ter que pagar diariamente seus pecados e aturar aqueles orgulhosos e miseráveis fazendeiros do alto de suas botas confeccionadas em legítimo couro, mas com saltos altos de arrogância.

Só no meio da tarde, após servir a eles, inúmeros cafezinhos e sem o consumo de mais nada e ainda depois de ter ouvido, por horas, a ladainha envolvendo variação do preço do café, o número de vagões que haviam partido para o Porto de Santos e outras coisas do gênero, é que ele conseguia cuidar dos demais clientes e dos seus próprios problemas.

Logo se lembrou da noite anterior e da discussão com a esposa sobre a compra de uma nova máquina de costura. Sua mulher adorava costurar, mas ele, um conservador e verdadeiro patriarca, detestava ver a mulher trabalhar e ter seu próprio ganho. Sua grande diferença com a esposa era exatamente isso, não havia nenhuma necessidade de ajudar a prover a casa e por isso nada lhe parecia justificar a compra daquela nova máquina de costura, por mais moderna que fosse.

– Eu preciso dessa máquina nova porque ela é mais rápida e me permite chulear e até bordar com mais rapidez e perfeição, disse ela, justificando a compra, quando ele a repreendeu…

– Veja estas calcinhas de seda, que estou fazendo para a esposa do Dr. Roberto. Eu acabei de bordar um lindo monograma, com a inicial do nome dela e a máquina fez tudo sozinha, é só fazer o ajuste certo! Veja como a letra ‘C ‘da inicial dela, ficou bonita. Não ficou? Tentando mais uma vez se justificar…

– Sim mulher! Sim, ficou bonita… respondeu ele já meio conformado…

Ele sabia que quando ela colocava alguma uma coisa na cabeça, não havia quem tirasse. Tudo tinha que ser como ela queria. Logo se lembrou do que sua mãe lhe disse quando ficou noivo: -Ela é do signo de leão, só faz o que quer, você vai sofrer na mão dela…

É melhor esquecer este assunto, pensou ele, já tirando um charuto do bolso do paletó enquanto já se servia de uma taça de conhaque, para degustá-los.

Já na primeira baforada foi inevitável que seus pensamentos se voltassem para aquelas calcinhas de seda e a sua dona, a sensual D. Carmem.

Ah que mulherão, pensou com seus botões. Ela era uma mulher linda, corpo escultural, e muito cobiçada pelos homens da cidade. Na casa dos seus 40 e pouco anos, esposa do Dr. Roberto, um dos maiores fazendeiros de café da região, herdeiro de várias fazendas da família, cujo avô tinha sido figura proeminente no início da república, tendo se tornado até interventor federal no estado.

Se lembrou também das inúmeras fofocas que corriam sobre ela. Nos tempos em que funcionava na cidade um Seminário de Padres ela teria sido amante do seu diretor, um padre da Consolata, Congregação da Igreja Católica. Também se comentava, a boca pequena, que quando o tal padre se foi da cidade, ela passou para os braços de um dentista, famoso na cidade por seus casos extraconjugais.

Tudo aquilo lhe parecia meros boatos, mas naquele momento era o que lhe dava asas à imaginação.

Durante a noite acabou sonhando com D. Carmem. Ela aparecia na sua frente, só vestida com aquela calcinha de seda preta, rendada nas extremidades, tendo um monograma da letra ‘C’, bordado em vermelho, na sua parte frontal.

O sonho terminou na cena em que notava a calcinha jogada ao lado da mesinha de cabeceira e corria os olhos, admirando, mais uma vez, aquele seu lindo corpo nu deitado sobre sua cama.

Acordou um pouco assustado e logo se lembrou do seu sonho. Puxou a esposa pela cintura, de encontro ao seu corpo, alisou seus cabelos e a beijou. Imediatamente os dois se esqueceram da pequena rusga sobre a máquina de costura…

Naquela manhã, ao chegar à Confeitaria, notou que estava com um movimento acima do normal, sem que ele soubesse o porquê. Talvez porque hoje estou feliz, imaginou ele.

De qualquer modo era mais um dia em que teria aquele vai e vem de Fazendeiros ‘mão de vaca’ e seus magros cafezinhos, seguidos na parte vespertina pelas damas da sociedade local que vinham para o tradicional chá da tarde.

Na maioria das vezes as senhoras vinham em grupos de amigas, mas, depois daquele dia, ele passou a reparar mais na D. Carmem. Constatou que, várias vezes, ela aparecia sozinha e sempre ocupava a última saleta dos reservados, na parte superior.

Então começou a perceber também, que sempre, nessas ocasiões, o tal dentista também aparecia.

Seria então verdade que eles eram mesmo amantes?

Seus sonhos se tornaram mais intensos e ele sempre se imaginava como sendo o amante da D. Carmem, tendo encontros furtivos naquele mesmo reservado, que ela costumava frequentar.

Algum tempo depois o tal dentista fugiu para a capital com sua secretária, menina nova de seus 18 anos, ocasionando um grande escândalo na cidade.

D. Carmem está agora livre, leve e solta, pensou ele…

No final daquela semana, a velha faxineira, começou mais uma vez a limpeza pesada semanal, nos reservados da parte superior da confeitaria.

Ao varrer por debaixo da mesa percebeu algo estranho.

Puxou com a vassoura e assustada viu se tratar de uma calcinha de mulher.

Era de seda, na cor preta, rendada, tendo na sua parte frontal lindamente bordado em vermelho, uma letra ‘C’….

José Luiz Ricchetti -02/08/2021

thiagomelego

thiagomelego

Jornalista por tempo de serviço, Radialista, Administrador, tecnólogo em Recursos Humanos. Estuda Análise e Desenvolvimento de Sistemas.