Do lar, por José Luiz Ricchetti

Acorda, está na hora!

Acorda! Você vai perder a aula!
Tento levantar, bate a preguiça, mas quando sinto o cheirinho do café no ar…
Vupt! Pulo da cama, lavo o rosto, escovo os dentes e começo a me trocar.
Em cima da cama, posso ver, lá está o meu uniforme, todo passado, bem dobrado, prontinho para vestir.
Me sento, para tomar o café da manhã, são 6:45 h.
A mesa completa, café, leite, pão, manteiga, frutas, suco, tudo o que tem direito. Penso com meus botões…
Caramba que horas ela se levantou?
Não passa muito tempo e ouço novamente: – Filho vai perder a aula!
Ouço o assovio do amigo me chamando no portão e saio em disparada para cobrir a pé, os muitos quarteirões, até o nosso Instituto de Educação, de uniforme limpo, pronto para mais um dia de aprendizado.
Meio dia, terminam as aulas e lá vou eu de volta para casa.
Mal chego já sinto do portão aquele cheirinho do feijão, gostoso… e a completar a mesa posta, o arroz fresquinho, a batata frita e aquele bife frito na hora.
Encho a pança!
Troco a roupa, coloco meu calção, camiseta e ‘kichute’, pronto para jogar uma pelada na rua de terra, ali perto de casa ao lado do rio.
Antes de sair, olho de soslaio e a vejo lá no tanque, esfregando o meu uniforme, que em seguida ela irá colocar para quarar, secar e depois passar….

Tchau mãe, grito já no portão.

Tchau filho, divirta-se!
Chego de volta no meio da tarde, acompanhado dos amigos da pelada…
E lá vem ela nos servir o ‘toddy’, batido com leite, bolo de fubá delicioso, com aquele cheiro gostoso de carinho e um incrível recheio de amor.
No final do dia a cena se repete mais uma vez, volto eu, todo sujo, dedão do pé esfolado…canela roxa…

Para o chuveiro menino! Que sujeira!
Ouço ela ralhar comido….
Assim que saio do banho, vejo ela lá de banho tomado, jantar esmerado, impecável, esperando meu pai.
Tempos depois……
Terminei o colégio, o tiro de guerra…
Deveres cumpridos, rumei para a capital, estudar engenharia, o tão sonhado curso superior.
Bate a saudade, volto quando dá, alguns finais de semana, no carnaval, nas férias… Tudo para buscar, sentir, curtir um pouco mais, o seu carinho e atenção.
Passam se os anos, eu já casado, morando em São Paulo, recebo a triste notícia, do seu câncer terminal.
O médico me diz sem delongas:

Dois meses, no máximo!
Mal cai a ficha, vem a tristeza, vou logo ao hospital, vencer a burocracia da internação.
Preencho logo os documentos, ali no balcão da recepção…
O jovem atendente, que naquele momento, tive a certeza, não teve essa mesma infância que eu, em seguida me questiona:

O Senhor esqueceu de preencher a ficha, aqui nessa parte da “Profissão”.

O que sua mãe faz, é doutora, advogada, arquiteta?
Com aquela pergunta, me vem à mente, em segundos, toda aquela minha rica infância, adolescência curtida com ela, recebendo todo o seu carinho, o seu amor, renascendo a cada um dos seus abraços….
Então, respondo, rápido e com muito orgulho:

Nada disso meu rapaz, minha mãe é “Do Lar”!

José Luiz Ricchetti – 20/06/18

José Luiz Ricchetti – 20/06/18

thiagomelego

thiagomelego

Jornalista por tempo de serviço, Radialista, Administrador, tecnólogo em Recursos Humanos. Cursa MBA em Negociação e Vendas. Estuda Análise e Desenvolvimento de Sistemas.
WP2Social Auto Publish Powered By : XYZScripts.com