NOSSOS CAQUINHOS DE CERÂMICA, por José Luiz Ricchetti

by thiagomelego 29 de março de 2021 at 8:09 AM
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Quem é que não conhece os caquinhos de cerâmica que viraram febre de revestimento em calçadas e quintais nas décadas de 50 e 60?

Nessa época, a cidade de São Paulo tinha duas grandes indústrias de cerâmica, que dominavam o mercado.

Entre os seus vários produtos, havia um tipo de lajota cerâmica quadrada, produzidas nas cores vermelha, amarela e preta, que eram muito usadas para pisos de residências, de classe média ou então nas casas comerciais.

Acontece que durante o processo industrial haviam muitas quebras e todo esse material quebrado, sem interesse econômico, era simplesmente descartado, como sucata e enterrado.

Até que um dia, um dos empregados de uma das cerâmicas, pediu para a sua fábrica se podia levar parte desse refugo de cerâmica, os caquinhos que eram jogados fora, e usá-los para revestir o piso do quintal de sua casa.

A companhia autorizou o operário e ainda lhe deu o transporte de graça, pois os caquinhos de cerâmica não tinham qualquer valor.

O operário foi assentando os caquinhos e para não deixar somente uma única cor vermelha que era a mais comum, resolveu inserir alguns cacos pretos e amarelos alternando aqui e ali essas outras cores no piso do seu quintal.

Ao terminar, a entrada da sua casa e o seu quintal ficaram, além de bonitos, totalmente diferentes da maioria dos vizinhos, que tinham somente um piso cimentado.

Isso gerou comentários dos próprios vizinhos, de amigos e demais trabalhadores da fábrica, fazendo com que essa solução do aproveitamento dos caquinhos, virasse uma febre e uma nova mania paulistana, saindo dos bairros operários até chegar a classe média.

Assim classe média adotou essa solução do caquinho cerâmico vermelho, com inclusões pretas e amarelas, muito rapidamente, a ponto de começar a faltar produto no mercado e peças inteiras de cerâmica serem quebradas pela própria indústria, para atender a nova demanda.

Com isso os caquinhos, de simples refugo passaram a ter mais valor e custar bem mais caro que o próprio ladrilho inteiro e original.

Assim é a nossa vida, todos nós também temos os nossos caquinhos, frutos dos nossos ladrilhos que vão se quebrando ao longo do tempo e que muitas vezes, não damos o devido valor e simplesmente os jogamos fora, os descartamos e os enterramos.

A gente se esquece de juntá-los para enfeitar e transformar o nosso quintal, valorizando os nossos melhores momentos, as nossas muitas experiências.
A gente se esquece de inserir, também, alguns cacos de outras cores aqui e ali, para quebrar a cor única da vida e assim transformá-la em uma vida muito mais rica e colorida.

A gente tem que lembrar que o nosso melhor professor é a experiência, que embora, muitas vezes, ela nos cobre caro, por outro lado nos explica tudo muito bem.

Os nossos cacos, as nossas experiências, precisam ser juntados em várias cores, para termos uma nova visão, mudarmos os paradigmas e transformarmos todas aquelas coisas, as quais damos pouco valor, em algo muito mais valioso que a própria cerâmica original.

A gente vive com o que recebe, mas somos marcados pela vida da maneira que enfrentamos os nossos desafios.

Por isso, é muito importante recolhermos sempre todos os nossos cacos, todas as nossas experiências, para transformá-las em algo que valha a pena.

Afinal o que se leva desta vida é a vida que se leva.

Junte seus caquinhos, insira algumas cores diferentes e os transforme rapidamente, de algo descartável, em algo de muito valor que sirva de exemplo a quem tem o piso somente cimentado!

José Luiz Ricchetti – 14/03/2021