SÃO MANUEL E SEUS “CINEMAS PARADIZO”, por José Luiz Ricchetti

by thiagomelego 21 de março de 2021 at 11:43 AM
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Quando em 28 de dezembro de 1895, os irmãos Lumiére exibiram, pela primeira vez, um curta metragem na Cave Grand Café, em Paris, o mundo mudou e todos nós nos apaixonamos pelo cinema. 

O primeiro contato dos são-manuelenses com a sétima arte, foi em 1904, 34 anos depois da fundação da cidade, quando a empresa ‘Gran Prix’, que realizava projeções pelo interior do Estado, visitou a cidade pela primeira vez.

Posteriormente, ainda que em moldes de espetáculos de circo, surgiram em São Manuel, em épocas alternadas, três cinemas: o ‘Cine França’, o ‘Bijou Pavilhão’ e o ‘Eden Pavilhão’.

Nessa época, as projeções eram mudas, e as bandas de música, tinham papel relevante no espetáculo, primeiro tocando, na entrada, para chamar o público e depois no próprio espetáculo, fazendo o acompanhamento musical dos filmes.

O ‘Eden Pavilhão’, por exemplo, chegou ao luxo de ter sua banda exclusiva, chamada ‘Orquestra dos Tais’.

Em substituição a esses tradicionais locais de projeção, surgiu na sequência o ‘Cine Royal’, comandado pelo maestro Genaro Castaldi.

Depois do Cine Royal, tivemos o ‘Cine Cassino’ dos irmãos Martorelli, adquirido depois pela empresa de Benjamim Augusto, que alterou seu nome para ‘Cine Rio Branco’.

O Cine Rio Branco também teve a sua orquestra, que se chamava ‘Frenesi’ e era regida pela competente e saudosa D. Irides Canella.

Depois do ‘Cine Rio Branco’, a empresa de Benjamim Augusto decidiu construir em prédio próprio, o ‘Cine Paratodos’, ali na rua Morais Gordo.

Anos mais tarde, Benjamim Augusto inaugurou o super-moderno Cine São Manuel, na confluência da rua Joaquim Floriano com a Epitácio Pessoa, em frente ao Jardim e que passou a ser administrado pelo seu filho Ademar Augusto.

Durante a minha infância, além do Paratodos, que carinhosamente era chamado de ‘Cinema Velho’ e do Cine São Manuel, chamado de ‘Cinema Novo’ havia mais um, que também fez parte da minha vida e com certeza da maioria dos garotos da nossa cidade, que viveram os anos sessenta, setenta.

Ele era tão simples como o Paratodos, e frequentado, praticamente, por crianças e adolescentes. Seu nome era ‘Salão Paroquial’, ou o famoso ‘Cinema dos Padres’. Seu prédio ficava localizado ali na Av. Irmãs Cintra, bem atrás da Igreja Matriz.

O Cinema dos Padres, a exemplo do enredo do filme ‘Cinema Paradizo’, obra prima do cineasta italiano Giuseppe Tornatore, tinha também o seu censor, que coincidentemente também era padre, o irrequieto vigário da nossa cidade, à época, José Radici, sempre acompanhado do seu auxiliar direto e projetor dos filmes, Irmão Aldo.

É impossível nos esquecermos dos berros do padre Radici, quando se desenrolavam cenas de beijos ou o início de alguma outra cena picante, para o seu dedicado assistente: – Cortaaaaaa Aldo!!!!

Não creio que haja alguém, que viveu a infância e a adolescência, principalmente em cidades pequenas do interior, que não tenha feito do cinema a sua principal diversão dos finais de semana.

Ir ao cinema aos domingos, era um programa obrigatório. Era a oportunidade de viajar e usar a nossa imaginação, baseado nas realidades que víamos sair das telas.

Quando eu tinha meus nove ou dez anos de idade o mais legal de tudo, era poder ir ao ‘Cinema Velho’ para assistir, os filmes de faroeste. Além disso não deixava também de levar a minha pilha de ‘Gibis’ (revistas em quadrinhos), para poder trocar, na porta do cinema, com todos os amigos.

Ao entrar no Paratodos, era quase obrigatório passar pela velha bomboniere, que ficava logo no canto esquerdo, para tomar um copo daquela groselha vermelha, meio morna, que ficava exposta num grande garrafão de vidro, em forma de barril, bem em cima do balcão. Era o momento de comprar também algumas balas ‘Chitas’ para adoçar a boca…

Depois, entrávamos e buscávamos um bom lugar para sentar, numa daquelas velhas e duras cadeiras de madeira da marca ‘Cimo’. Depois era só segurar a nossa ansiedade, até que tela se abrisse e o filme começasse a rodar.

Quem, por acaso não se lembra de torcer, batendo com os pés no chão, quando aparecia na tela uma daquelas perseguições, do mocinho, montado em seu cavalo, galopando, atrás do bandido?

Como esquecer dos primeiros filmes de cowboy do Roy Rogers e seu lindo cavalo ‘Trigger’, ou da série ‘O Paladino do Oeste’ ou então do Zorro com seu traje preto, capa, chapéu e máscara, montado no cavalo Tornado e imprimindo a marca “Z” com sua espada, nos inimigos, perseguido pelo engraçado Sargento Garcia?

Como não se lembrar dos filmes de Tarzan e sua macaca Chita, nadando no rio, perto de ferozes crocodilos e subindo em árvores, para dar aquele seu grito que ecoava por toda a selva: Aôôôôôô….Aôôôôôô……Aôôôôôô !

Difícil se esquecer qualquer um desses filmes e dos velhos cinemas, o dos Padres e o Paratodos, o nosso ‘Cinema Velho’….

O tempo seguiu e veio a adolescência com as namoradas, os bailes, as paqueras e o Cinema Velho ficou mesmo velho, ficou para trás…

O que passou a ser ‘uma brasa mora’ na época da adolescência era ir na sessão de domingo, das vinte e uma horas, no elegante Cine São Manuel, com sua inusitada exigência de só poder entrar com paletó e gravata.

Seu prédio era muito avançado para a época. Sua forma imponente parecia um grande cubo, tendo na sua parte de cima um enorme vitral de vidro transparente, entremeado com blocos vazados, parecidos com os aqueles tijolos furados, imitando uma grande colmeia.

Seu piso era todo de pequenas pastilhas cinzas e brancas e na parte externa havia uma grade sanfonada, de cima abaixo, e que quando fechada deixava transparecer, dentro daquele espaço, os cartazes dos filmes, com fotos dos artistas principais, enfatizando com suas placas coloridas, fixadas com tachinhas, que o filme era ‘Cinemascope Colorido, o máximo de tecnologia para essa época.

Haviam duas bilheterias, onde podíamos escolher entre assistir ao filme da plateia, que era embaixo, com 800 lugares ou então assistir do Pullman, a parte superior, mais cara e que tinha um grande balcão que abrigava suas 400 cadeiras reclináveis.

A entrada principal era bem bonita e através da sua porta principal, em madeira clara e vidro transparente, se podia ver os descolados sofás vermelhos, da sala de espera.

A esquerda da entrada, havia bem ao lado, uma outra porta, que dava acesso ao privativo Pullman, paraíso dos casais mais velhos e onde os beijos trocados, bem afundados nas poltronas reclináveis, tinham o sabor de hortelã, das famosas balas ‘Pipper’.

Tudo acontecia sob a supervisão do querido Mauro de Oliveira, que era o senhor ‘faz tudo’ do cinema, pois além de gerente, cuidava também da bilheteria e do trabalho de lanterninha.

A sua ampla sala de espera, além dos imponentes sofás vermelhos tinha também cinzeiros dourados e na sua parte central uma fina bomboniere, administrada pelo simpático Zigomar Augusto.

À esquerda tínhamos uma continuação da sala de espera, com a mesma decoração e ao fundo as toaletes e o bebedouro. Para se chegar a plateia, tínhamos que descer uma pequena escada, bem no centro, entre as duas salas de espera e atravessar suas espessas cortinas de veludo azul.

As poltronas da plateia, eram todas na cor cinza, confortáveis e com seus assentos móveis e dobráveis. O chão era inclinado, como deve ser em um cinema, com carpete também cinza, e no fundo ficava o tradicional palco com sua grande tela, encoberta por enormes cortinas, iluminadas do chão ao teto, por uma mistura de luzes coloridas, imitando um arco íris.

Ao apagar ou acender das luzes, no início e término dos filmes, suas cortinas se abriam ou se fechavam automaticamente e como numa fonte luminosa de jardim, recebiam o fluxo de variadas luzes, em múltiplas cores, que acompanhavam os movimentos da própria cortina.

Complementava toda a abertura e fechamento um fundo musical, inspirado nas músicas dos salões de dança do século XVIII.

Até hoje essas músicas, permeiam minha memória, como uma grata lembrança desse tempo maravilhoso da minha adolescência.

Não sei quantas vezes eu assisti lá aqueles filmes épicos, que eram repetidos, de tempos em tempos, principalmente durante a semana santa, como ‘Ben-Hur’, ‘Hércules’ e ‘Os 10 mandamentos’.

Outros filmes também se tornaram, com o tempo, figurinhas carimbadas, como aqueles da Pantera Cor-de-Rosa com Peter Selles, as comédias com Jerry Lewis e a série interminável de filmes do Agente 007, com o fantástico ator Sean Connery.

No rol das comédias brasileiras haviam aqueles filmes do Mazzaropi, como, ‘Tristeza do Jeca’, ‘Jeca tatu’, ‘Vendedor de Linguiça’, ‘Chofer de Praça’, ‘Jeca e a Égua Milagrosa’, e muitos outros…

Muitos também foram os filmes marcantes que fizeram época como: La Doce Vita, Noviça Rebelde, Mary Poppins, A Hard Day’s Night (Beatles), A Bela da Tarde, Dólar furado, 2001 – Uma odisséia no espaço, Butch Cassidy, Dr. Jivago, Love Story, Zorba o grego, Bullitt, Planeta dos Macacos, Sem Destino, Golpe de Mestre e tantos outros que a memória não me deixa lembrar.

Fellini, o grande cineasta italiano disse, certa vez, que o cinema é o modo mais direto de tentar competir com Deus. Apesar de ser uma frase que soa forte, não podemos deixar de afirmar, que nessa época, todas as vezes em que íamos ao cinema, saíamos de lá, pisando em nuvens, como se tivéssemos realmente visitado os céus.

O Cinema Novo também me traz lembranças da primeira namorada. Ai, logo me vêm à mente as lindas lembranças de ter que esperar o apagar das luzes, para procurar a poltrona vaga, ao seu lado, sempre guardada pela sua melhor amiga.

Era o momento mágico de poder se sentar, sentir o encostar de braços, o arrepio na pele, para então pegar na sua mão, cruzar olhares, esperar ela se encostar no meu ombro, para então abraçá-la e lhe dar um furtivo beijo, enquanto o filme seguia seu curso de criar sonhos e encantamentos.

Charles Chaplin, disse também, que num filme, o que mais importa não é a realidade, mas o que dela se pode extrair, para a nossa imaginação.

Então, nós todos, com certeza, extraímos daqueles filmes, muito mais, para a nossa imaginação. Foram eles que nos deram a capacidade de sonhar e seguir em frente para realizarmos cada um desses nossos loucos sonhos.

Apesar de São Manuel ser uma cidade pequena, ela sempre foi muito rica em cultura, pelo menos até os anos 70 e sempre nos encantou com suas bandas de música, seus jornais, seu teatro, seus recitais, seus fantásticos carnavais, suas orquestras. 

Foram todo esse banho de cultura e mais os seus cinemas com os fantásticos filmes, que nos enriqueceram ainda mais e nos impregnaram a alma com todas essas maravilhosas lembranças, que estão tão bem guardadas nos nossos corações.

Mas como tudo tem começo, meio e fim, o aparecimento da televisão e seus grandes filmes e séries, seguido do surgimento dos vídeos e mais a febre das locadoras, fez com os cinemas perdessem o seu atrativo e consequentemente rentabilidade.

Então, a grande maioria dos nossos cinemas, como um dominó, foram um a um, sendo derrubados e fechados, como aconteceu na maioria das cidades, país afora.

O nosso último gladiador, o fantástico Cine São Manuel, que permaneceu teimosamente aberto, por um bom tempo, dentro desse turbulento Coliseu econômico, exibiu seu último filme, ‘Fortaleza Proibida’ no dia 20 de agosto de 1988.

Como gladiador já cansado, depois de tantas lutas, ele tombou e pela primeira vez caiu na arena. Fechou as cortinas dos seus olhos e se foi, nos impedindo de continuar a assistir nossos filmes e alimentar novos sonhos.

Naquele 20 de agosto de 1988, ele seguiu, inevitavelmente, o caminho dos outros dois irmãos mais velhos, o cinema dos Padres e o Paratodos, que já tinham sucumbido anos antes.

Mas o importante é que todos esses cinemas, desde o primeiro deles, o Cine França, até o último, o Cine São Manuel atingiram o seu maior propósito de encantar gerações e deixá-las marcadas por toda uma vida.

E ficamos tão marcados, que hoje quando estamos vivendo a nossa vida real, a ficção sempre nos parece coisa de cinema, mas quando vivemos uma ficção, é a nossa vida real, que nos parece coisa de cinema….

José Luiz Ricchetti – 16/03/2021