“A caneca colorida” – Por José Luiz Ricchetti

by thiagomelego 1 de junho de 2020 at 7:00 AM
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Hoje, o dia amanheceu com um céu muito azul e um sol forte entre as nuvens, mas o frio e o vento de inverno também se faziam presente. Tomei meu café, me sentei na varanda e comecei a divagar nos próprios pensamentos.

O clima da manhã me levou a lembrar de uma época da infância, neste mesmo período de inverno, quando lá pelo meio do mês de agosto, eu e meus irmãos, já começávamos a ficar ansiosos, porque sabíamos que estava chegando o dia da ‘Festa da Aparecida’.

Todo dia 15 de agosto, logo pela manhã, nós todos da família já nos preparávamos para ir na missa das 10 horas no Santuário de Aparecida de São Manuel, onde, todos os anos, tinha a festa de comemoração à N.S. Aparecida, que ocorria nesse pequeno distrito, pertencente à minha cidade natal. Era uma festa famosa e não só bastante esperada por todos da cidade, como também pelos demais habitantes da região da alta sorocabana.

A festa tinha barracas de todo tipo, formando uma grande quermesse, onde todos se reuniam, sempre no entorno da Igreja, levando cada um as suas esperanças e suas promessas, para serem devotadas em demonstrações de fé e em louvor à Nossa Senhora Aparecida.

Durante todo o dia haviam também as rezas de terços, as várias missas e a tradicional procissão, que ocorria no final da tarde, percorrendo as pequenas e poucas ruas daquele distrito.

Nessa época o Seminário de Padres tinha um prédio adjunto por lá e era comum vermos os seminaristas e padres professores, circulando pela quermesse, suando muito debaixo de suas compridas batinas pretas, feitas de lã pesada, mas todos muito contentes, com o crucifixo pesado no peito e um sorriso no rosto, porque a festa era uma das poucas oportunidades no ano deles romperem a clausura e a rigidez do internato.

‘Aparecidinha’, como era carinhosamente chamada por todos, tinha praticamente quatro ruas principais, que eram justamente aquelas que formavam o quadrilátero em volta da praça e da igreja, bem no centro da vila. Todo esse perímetro, no dia da festa, era lotado de barracas e carrinhos, com os mais vários tipos de comidas, produtos em geral e uns cem números de bugigangas.

Do lado esquerdo da igreja ficavam as barracas de comidas, começando com a grande barraca dos padres, ao lado do seminário, em um local coberto com toldo e muitas mesas. Eles serviam habitualmente um delicioso churrasco, daqueles feitos em fogo de chão, quando se abre uma vala na terra, colocam-se as toras de lenha e depois os vários espetos de pau com as carnes, são fincados à volta do fogo, para poder assar.

Logo abaixo, existia também uma outra barraca grande, que servia frango assado, o que hoje chamaríamos de galeto, mas que na época era um bom e gordo frango caipira, acompanhado de uma bela polenta, à moda italiana e um delicioso vinho caseiro, de garrafão.

Depois vinham, na sequência, mais uma dúzia de barraquinhas que vendiam entre outras coisas, pastel, garapa, o refrigerante local ‘Princesinha’ ou ‘Marly’, o cachorro quente, sanduíches de mortadela, de pernil e de linguiça calabresa e mais uma variedade de doces, pudins, quindins, fio de ovos e muitos outros quitutes em geral.

Além dessas barraquinhas haviam também os carrinhos que vendiam a pipoca, o quebra queixo, a geleia colorida (aquela de cor opaca e gosto de maizena) e o que não podia faltar, os tabuleiros cheios das deliciosas maçãs do amor.

Lembro que era impossível alguém esquecer e deixar passar a festa sem que tivesse provado o amendoim torrado (embaladinhos em cones de papel) e comido uma maçã do amor, na maioria das vezes feito pelas mãos hábeis do simpático “Dito Pipoqueiro”.

No final da rua o que chamava a atenção era a grande fila que se formava em frente a uma casa simples, de esquina, onde se viam muitos bebês no colo de suas mães, várias senhoras, todas com suas sombrinhas, por causa do sol, e também uma quantidade expressiva de moças adolescentes. Ali era a casa da Dona Benedita, a famosa benzedeira, residente há muitos anos, ali no Distrito de Aparecida e bastante procurada pelos fiéis para tirar o mal olhado, cobreiro, quebrante e trazer de volta o tão sonhado noivo….

Do outro lado da Igreja ficavam as barraquinhas de produtos em geral e bugigangas, era gente vendendo panelas de ferro, caminhõezinhos de madeira, estilingues, pipas, cata-ventos coloridos, bonecas, toalhas de crochê, panos de prato, calças, blusas e vestidos, chapéus, cintos e tantas outras coisas, sem falar nas botas, nas botinas de sola de pneu, nos arreios, freios e pelegos de lã de carneiro, coloridos.

Em qualquer canto que se olhasse, podia se ver os ambulantes, vendendo alguma coisa, desde facas, canivetes, fumo de corda, cigarros de palha, isqueiros a fluido (os chamados ‘bingas’) até os que vendiam bexigas coloridas, petecas, bichinhos de pelúcia, brinquedinhos de pilha, tudo junto e misturado com algodão doce, pipoca, pirulitos e arroz doce de pacote, para delírio da molecada e desespero dos pais.

Assim que chegávamos lá, eu já ia para a frente da barraquinha de bugigangas, comprar minha caneca colorida, de alumínio e ficava esperando o dono da barraca gravar o meu nome.

Eu gostava de ficar ali observando atento, o trabalho do velho artesão, gravando o meu nome, com uma letra que parecia ser daquelas ‘góticas’ e lembro que no final, quando ia gravar a última letra, ele costumava fazer um rococó qualquer, talvez com a intensão de dar o seu toque de arte, naquele trabalho.

Nessa época, ir à “Festa da Aparecida” e voltar para casa sem uma caneca dessas, de nome gravado, não comer o amendoim torrado e não provar uma maçã do amor, era, talvez exagerando, o mesmo que ir a Roma e não ver o Papa.

Mas o mais importante é que cada uma dessas pequenas lembranças que me veem à mente, se transformam em fragmentos de alegria, de um período ímpar da minha infância, como se fizessem parte de um só quebra cabeça.

É como se, de repente, elas me transformassem em um caçador de pedaços de mim mesmo, perdidos no tempo, trazendo todos à tona, novamente, para poder sentir e flutuar nessas belezas, guardadas como joias de alegria no coração.

Alguém disse uma vez, que a infância e a velhice são duas fases em que a felicidade está somente numa caixa de bombons. Eu discordo e digo que a gente nunca envelhece se conseguirmos manter na memória para resgatarmos, a qualquer tempo, esses pedacinhos mágicos de lembranças da nossa infância.

Como disse, Mario Quintana “Triste daquele que não conserva nenhum vestígio da sua infância”.

É por isso que acredito nessas pequenas lembranças, que embora, à primeira vista possam parecer, que nos aprisionam ao passado, são elas, que na verdade nos trazem de volta, mesmo que por segundos, aquele mesmo gosto gostoso do amendoim torrado e nos faz estampar no rosto o mesmo sorriso aberto, ao morder uma maça do amor.

Infelizmente não tenho mais, nenhuma daquelas canecas coloridas, de alumínio, com o meu nome gravado. Mas se ainda tivesse, pelo menos uma delas, e me fosse permitido voltar no tempo, para encontrar o mesmo velho artesão, eu lhe pediria para acrescentar, logo abaixo do meu nome, gravado em letras góticas, a palavra ‘saudades’…..

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